Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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Quatro dias de programação serão dedicados a discussão sobre os desafios na construção de um projeto popular para o Brasil junto aos povos do campo

"Não se amoldem às estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renovação da mente, a fim de distinguir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que é agradável a ele, o que é perfeito" (Romanos 12,2)

Pés no chão. Vozes de agentes entoando a missa dos quilombos. 'Estamos chegando do fundo da terra, estamos chegando do ventre da noite, da carne do açoite nós somos, viemos lembrar'. Assim deu-se início a programação da Semana Nacional de Formação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que nesta ocasião tem como tema "Povos do campo, das águas e das florestas na construção do Projeto Popular para o Brasil: desafios para a Comissão Pastoral da Terra". 

Texto: Amanda Costa - Assessoria de Comunicação da CPT Nacional
Fotos: Amanda Costa e Welligton Rodrigues

 

Entre os dias 4 e 7 de novembro, agentes, coordenadores e coordenadoras de regionais, além de assessores e assessoras, estarão reunidos em Goiânia (GO) para partilhar de experiências, saberes e práticas desenvolvidas enquanto pastoral diante da atual conjuntura, levando em consideração a sua atuação junto aos diversos povos que vivem no campo brasileiro. Da mesma maneira, o encontro se propõe a elaborar novas perspectivas de enfrentamento e resistência para os próximos anos, que se colocam como desafiadoras para o romper de cercas da luta camponesa. 

Após o momento místico de abertura, o primeiro dia da formação se propôs a estimular um momento de partilha em que os presentes se dividiram entre pequenos núcleos de "comunidades" enraizadas em temas ligados ao trabalho pastoral. Em comunhão, os integrantes das comunidades teceram seus primeiros apontamentos sobre qual projeto de CPT e Brasil queremos construir a partir de seus núcleos de discussão. 

Neste caminho, em seguida, integrantes de movimentos históricos do campo e parceiros da CPT abriram o Painel 'Uma leitura do campo brasileiro, desafios e perspectivas'. Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura (CONTAG) e Movimentos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) foram provocados a apresentar um olhar sobre a conjuntura a partir da atuação de cada uma das organizações, indicando os desafios agrários, a reafirmação da pauta dos povos do campo na cena política e a formas de enfrentamento que precisam ser assumidas frente à ascensão da extrema-direita no país.

Nonato Nascimento, integrante do CPP regional Ceará e militante do Movimento Negro, lembrou o percurso histórico do que os movimentos sofreram nos últimos anos, incluindo golpes e contra-reformas. Em seus apontamentos, Nascimento colocou o processo de formação como papel principal dos profetas e profetisas rebeldes na construção de um projeto popular, proposto a partir do que nomeia como "pedagogia da maré". "Este é um movimento que vai e volta, que enche e seca, o movimento em que você consegue encarar as ondas ou o momento em que a embarcação não consegue chegar na praia", exemplifica.

Entre as denúncias elaboradas pelo CPP em sua caminhada junto aos pescadores e pescadoras, o destaque é em relação ao racismo estrutural, ambiental e religioso, já que as comunidades tradicionais pesqueiras possuem raízes negras e indígenas, mas o estado as tratam de maneira extremamente violenta. "Precisamos denunciar o estado brasileiro que se constrói através do genocídio, do racismo, isso tem impacto não só nas relações econômicas, mas na vida material e simbólica, nas identidades das comunidades, em suas formas de luta", pontou Nascimento.

"Arroz deu cacho e o feijão floriô, milho na palha, coração cheio de amor."

No sentido de refletir sobre a Reforma Agrária em seu sentido amplo, Alair Luiz dos Santos, secretário de Política Agrária da CONTAG, apresentou algumas propostas que têm sido pensadas para incidência política e junto aos territórios, as quais também se apresentam como desafio tendo em vista o enfrentamento vislumbrado para os próximos quatro anos, de governo Lula. "O governo que temos aí vai ter que fazer muitas negociações, enfrentar muita resistência, e daqui vamos ter que apertar para trazer um fortalecimento do nosso campo, dos agricultores e agricultoras familiares, da luta pela terra", afirmou o secretário.

Entre as propostas colocadas estão a valorização e respeito às comunidades tradicionais, envolvendo, neste caso, a titulação de terras; a retomada de mobilizações para fortalecer novas perspectivas de desapropriações e distribuição de áreas, diminuindo os latifúndios; ações contra a transferência de terras públicas ao agronegócio, em detrimento das famílias de agricultores e agricultoras; e o fomento a financiamentos para fortalecer a produção dentro dos assentamentos, apresentando alternativas sólidas contra o modelo de produção capitalista, com seus monocultivos e uso de venenos.

Sobre a privatização de terras públicas, Alair trouxe o caso do Amapá, Roraima e Rondônia, em que a CONTAG, junto à CPT, entraram com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade - ADI para impedir a transferência dessas terras públicas para fazer um grande leilão para o agronegócio. O secretário defende que a destinação dessas terras para assentamentos de famílias agricultoras "inclusive, minimiza a violência no campo, que se aflora nesses estados". 

"'Alto lá esta terra tem dono'. Índio Sepé Tiaraju, ficam os filhos de Nhanderu"

Para fechar as contribuições ao painel, Gilvan Rodrigues, da direção do MST em Goiás, teceu análise sobre a atuação da extrema-direita no período eleitoral deste ano, que vem se organizando desde e resgatou ações feitas como resistência e propostas. "Em 2022 ganhamos uma junção de forças sociais, mas sabíamos que havia uma conciliação de classes. Agora, o que estava em jogo era um projeto fascista e extermínio das organizações, ou um projeto democrático com viés popular. Se tivéssemos perdido, talvez caminharíamos em outro rumo, embora ganhar as eleições não signifique que ganhamos toda a guerra", enfatizou.

Como elementos importantes destacou o trabalho de base, a militância animada, a retomada da militância de casa em casa, e especialmente de 'zap em zap', chamando a atenção para a necessidade de nos voltarmos à atuação nas redes sociais. Além disso, sinalizou aproximação com as periferias das grandes cidades como outro elemento positivo, a exemplo dos trabalhos de solidariedade, de produção para amenizar a fome na conjuntura de pandemia e crise econômica. "Isso nos ajudou a ter respaldo nos grandes centros urbanos. Precisamos continuar essa aproximação do campo com a cidade como projeto de organização, como uma necessidade tática para o período atual", concluiu Gilvan.

"Onde cabem as comunidades tradicionais no projeto popular para o Brasil?"

Foram as próprias comunidades que trouxeram questões em busca de resposta a este questionamento. A segunda parte do primeiro dia de formação, portanto, foi voltada à escuta de partilhas que vem do chão dos territórios, sobre suas resistências, desafios ou caminhos de esperança.

Na roda de conversa, um indígena Akroá-Gamella do Maranhão compartilhou a história de seu povo, que vem fazendo a luta e resistência pela terra e pelo direito de existir desde seus ancestrais. Ele lembrou que a história dos Akroá-Gamella vem desde o Piauí, de onde saiu o seu bisavô, no tempo de seca, para a baixada maranhense, para constituir família. "Eu sou fruto e tenho pertencimento a este lugar", afirmou o indígena.

Questionado de onde vem a força para seguir na luta, também revelou: "evocamos nossos encantados, a força que vem de dentro. A comunidade que não pratica sua fé, não chega aonde ela quer". De seu relato também ecoou que "a luta não se faz com fome". Ao falar da diversidade da produção de alimentos de seu território, reforçou a necessidade de "respeitarem o nosso tempo, o tempo de plantar, de colher, de celebrar".

A força, além de emergir dos encantados, brota do chão em que os alimentos são cultivados sem veneno, como forma de resistência. É o que comprova a agricultora do assentamento Capim de Cheiro, na Paraíba. Em sua fala, a assentada fez um resgate da luta histórica de sua comunidade, que se estende desde 1999, pela produção e comercialização agroecológica. "Hoje, depois de todas as lutas que enfrentamos, porque muitos desistiram, não acreditavam, somos 100 famílias no processo agroecológico, e todas elas produzindo seus próprios produtos", destacou. Destaca-se, ainda, a atuação crucial das mulheres no êxito do trabalho, sendo essas responsáveis por motivar 59% das famílias agricultoras. 

De agosto de 2021 até julho deste ano, as comunidades envolvidas nesse processo comercializaram, em oito feiras espalhadas no campo e na capital, 232 toneladas de alimentos, todos eles vindos de assentamentos e acampamentos que ainda estão em conflito pela terra. Em média, atendem dez municípios da região da Mata da Paraíba. "Apesar do desgoverno, da falta de contribuição com os agricultores, conseguimos superar", manifesta enquanto anúncio dos povos e exemplo concreto de superação do modelo capitalista de produção.

"Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer, participando sem medo de ser mulher."

Para fechar o momento, a quilombola do Quilombo Rodrigues, em Brumadinho (MG), tataraneta de escravos que foram libertados, reivindicou: "Queremos saber, reconhecer, ter o título da nossa terra!". 

Fonte: CPT Nacional