Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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Cada dia mais degradado, o cerrado brasileiro pede socorro. Considerado a savana que abriga a maior diversidade de árvores do globo, o bioma hoje amarga um conjunto de problemas que se avolumam no ritmo da expansão do agronegócio, da criação de gado, do garimpo e das queimadas. Foram, por exemplo, mais de 31 mil focos de calor registrados entre 1º de janeiro deste ano e o final de agosto, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É a pior número desde 2012.

O cerrado é responsável pela água que chega na minha casa, na sua casa (...) isso aumenta nossa responsabilidade

“Imagina a situação das comunidades que estão sob esses incêndios. Muitas vezes, elas têm seus territórios invadidos, e muitas vezes como estratégia de disputa por essas terras pelo agronegócio, que tenta entrar e avançar”, descreve Leila Cristina Lemes, integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e articuladora da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

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Neste mês em que diferentes organizações civis e especialistas potencializam o coro sobre a importância da conservação do bioma – o Dia Nacional do Cerrado é comemorado em 11 de setembro –, Leila Lemes conversou com o Brasil de Fato a respeito das problemáticas que cercam esse pedaço tão valorizado e, ao mesmo, atacado do país.

A integrante da CPT também assinalou a relevância das estratégias que vêm sendo adotadas e as que ainda precisam entrar na cartilha de preservação do cerrado brasileiro. Confira a seguir a entrevista na íntegra.   

 O objetivo é multiplicar essa ideia pra outros lugares, construindo, juntos, redes de proteção através das nascentes
 
BdF – A CPT lançou um tempo atrás a campanha “Salve uma Nascente”, com o propósito de recuperar cinco nascentes localizadas no cerrado. Explica pra gente como tem sido a execução da campanha. Em termos práticos, o que vocês obtiveram até agora?

A campanha é uma iniciativa da Articulação Cerrado com a CPT, e a articulação abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rondônia.

Então, juntos, a gente tem essa estratégia em relação ao cerrado. E a campanha “Salve uma nascente” tem como objetivo, através de uma vaquinha on-line, arrecadar recursos pra recuperar nascentes em cinco estados: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí e Maranhão.

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O objetivo é também multiplicar essa ideia pra outros lugares, construindo, juntos, redes de proteção através das nascentes. A CPT há tempos vem trabalhando com recuperação de nascente, então, está tendo um processo de formação com comunidades, mostrando a importância dessa proteção.

Até agora, a gente fez a primeira etapa dessa campanha, que era um momento de sensibilização, produção de materiais e divulgação nas redes sociais. A partir de setembro, fizemos o lançamento de doações pra campanha, a segunda fase da campanha. E, depois, mais no final de outubro, nós vamos cumprir a terceira etapa, que é a recuperação de nascentes.

BdF – Onde exatamente vocês vão aplicar os recursos? Quais são as ações, dentro do processo de recuperação de nascentes, que eles ajudam a financiar?

A campanha é pra que a gente possa secar as nascentes, comprar os materiais pra recuperá-las, como mudas, pra recuperar e multiplicar essa ideia da recuperação, sabendo que a importância de recuperar é a importância de preservá-las, pra que possa também chegar nos rios e nas torneiras das nossas casas a água.

BdF – O cerrado é um dos biomas mais relevantes do país e também um dos que mais sofrem com as queimadas. As que ocorreram em 2021 são as piores desde 2012, segundo dados do Inpe. Nós tivemos mais de 31.500 focos de calor entre o primeiro dia do ano e o final de agosto. Qual é o peso da atividade humana no cenário desse problema?

Vejo a questão dos incêndios com um peso enorme da atividade humana, como por meio do avanço dos monocultivos, que se utilizam também desses incêndios criminosos pra aumentar a lavoura, a criação de gado. A gente vê que, em plena pandemia, o pantanal foi devastado ano passado e a gente vê que este ano já tem muitas queimadas e áreas extensas do cerrado foram queimadas.

 Um grande desafio é a gente ter condições de barrar esses grandes projetos de agro e hidronegócio
 

Outra questão é o garimpo, que utiliza suas estratégias pra desmatar e colocar fogo em tudo. Outra questão é a área urbana: as cidades são muito atingidas também pela fumaça, o que causa doenças respiratórias e outras.

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Agora, a gente imagina a situação das comunidades que estão sob esses incêndios. Muitas vezes, elas têm seus territórios invadidos por esses incêndios e muitas vezes como estratégia de disputa por essas terras pelo agronegócio, que tenta entrar e avançar.

BdF – O cerrado é também chamado de berço das águas pelo fato de concentrar três grandes aquíferos e ter uma contribuição muito relevante no abastecimento do país. Qual a relação entre a preservação da vegetação do bioma e a manutenção dos níveis de água?

O cerrado depende muito de 12 fatores pra manutenção das bacias hidrográficas e pra garantir água pra boa parte da população brasileira. Inclusive, grandes centros populacionais precisam disso.

Um desses fatores são as águas da chuva e outro são as áreas de recarga dos principais aquíferos, estas localizadas principalmente nas chapadas e mais devastadas e ocupadas pelo grande agronegócio.  

Então, a vegetação e o solo do cerrado possuem características importantes que proporcionam esse acúmulo de água, como, por exemplo, os solos porosos e as árvores com raízes profundas. Por isso ele é considerado uma floresta invertida. Retirando essa vegetação, as águas acabam desaparecendo, além dos resíduos que se formam e acabam fazendo tudo isso.

BdF – O país vive uma crise hídrica que vem sendo apontada como algo de proporções históricas. Isso é também um dos preços que se pagam pelo desmatamento causado pela intervenção humana desequilibrada?

É, essa intervenção desequilibrada e predatória já vem de algum tempo e se intensifica a partir da década de 70, com a expansão das fronteiras agrícolas. Então, o resultado de tudo isso é o momento dessa onda internacional, principalmente as commodities das monoculturas de exportação. 

 Reconhecer o cerrado e seus povos como patrimônio nacional é indispensável para a proteção do território brasileiro.
 

O cerrado é considerado o celeiro do mundo e é colocado também como território das águas e também do mercado internacional de terras, o que movimenta uma especulação financeira. 

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O cerrado é responsável pela água que chega na minha casa, na sua casa, então, a água que sai das torneiras é de todos os brasileiros. Ela vem do cerrado. Isso aumenta mais a nossa responsabilidade em ajudar a cuidar dele, das árvores e também das nascentes, que são esse bem tão precioso pras nossas vidas.

BdF – O cerrado e suas áreas de transição chegam a atingir uma média de 36% do território do Brasil. Isso não é pouca coisa. Olhando para o futuro, quais são os principais desafios pra se manter esse bioma com toda a sua riqueza? A ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, que está em debate no Senado, seria um dos caminhos?   

Um grande desafio nessa questão de manter o cerrado com a sua riqueza é a gente ter condições de barrar esses grandes projetos de agro e hidronegócio, com o apoio aos monocultivos, como a soja, o algodão e eucalipto e varias outras em que se utilizam incêndios criminosos para transformar [a área] em vastos quilômetros improdutivos e ainda se utilizam as lavouras irrigadas, que acabam secando os rios e as nascentes.

Outro agravante é o uso de agrotóxicos, que envenenam as águas, invadem as comunidades que vivem perto dessas grandes lavouras. Elas precisam das águas pros seus afazeres domésticos e pra beberem também, pras suas hortas e pros seus animais.

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A ampliação do Parque nacional da Chapada é uma discussão antiga que, a meu ver, é um caminho, uma estratégia de proteção dessas áreas de unidades de conservação. Penso que, se é lei, tem que se cumprir. O cerrado morre porque não tem o que o proteja como a Amazônia tem.

Então, é por isso esse avanço sem limites sobre a terra, as águas e a sua biodiversidade. Garantir esse direito do acesso à proteção desses povos e comunidades a terra e território é fator primordial pra se fazer justiça. Reconhecer o cerrado como patrimônio nacional e seus povos como patrimônio também se torna imprescindível. É indispensável essa proteção pro território brasileiro.

BdF – Como as pessoas podem se engajar na campanha de vocês pra ajudar a salvar as nascentes do cerrado? Onde elas podem se engajar e o que podem fazer exatamente pra participar desse movimento?

Eu peço a todos que se juntem a nós nessa luta de defesa das nascentes e das águas. Pra ajudar, é só entrar em https://benfeitoria.com/salveumanascente e fazer a doação. O cerrado, as águas resistem a tantas coisas... Então, fica essa mensagem de resistência desse bioma tão importante.  

Edição: Douglas Matos