Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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Eles saem aos milhares. Não se sabe exatamente quantos. Porque, aos olhos do poder público, muitos são invisíveis. Nem sequer representam estatísticas burocráticas. Eles partem em busca de sobrevivência. Porque onde moram não há emprego, renda nem dignidade. Eles voltam humilhados. Porque o sonho facilmente se transforma em desalento. O Jornal do Commercio embarcou numa viagem clandestina para denunciar a rotina sofrida dos trabalhadores migrantes que saem do Nordeste para cortar cana nas usinas de Mato Grosso.

Deparou-se com um Brasil arcaico, que convive com o trabalho escravo, com a exploração de mão-de-obra e que enterra, impunemente, trabalhadores transformados em máquinas de cortar cana. O êxodo é velho conhecido dos bóias-frias nordestinos. Mas a rota percorrida pela reportagem é nova. Permanece ignorada pelo Estado. E por isso mesmo é mais degradante. Enquanto todos os olhares recaem sobre São Paulo, maior produtor de

açúcar e álcool do País, o JC foi descobrir por que Mato Grosso, próspera fronteira agrícola brasileira, está virando o novo eldorado dos canavieiros nordestinos, sobretudo pernambucanos e alagoanos. Durante três semanas, a equipe acompanhou a saga desses migrantes temporários, que deixam a família para trás a cada nova safra. Percorreu várias cidades do Centro-Oeste, flagrou canavieiros ilegais trabalhando sem carteira assinada, colecionou relatos de decepção e de superação de homens que passam até oito meses longe de casa. Na volta, fez o caminho inverso e foi buscar, nas cidades de onde partem os peões, o outro lado desse drama. No esforço de encontrar esposas, filhos e mães que vivem uma longa espera, juntou histórias de vidas que acabam interrompidas pelo ciclo da cana e pela urgência de comer. O caderno especial publicado hoje é o resultado dessa jornada de dois meses por 3 Estados e 12 cidades. Um registro da realidade de um Nordeste que continua a mandar para fora homens fortes, condenados a cumprir a eterna sina de uma vida severina.

De volta às senzalas Publicado em 28.05.2006

Em Mato Grosso, bóias-frias são obrigados a trocar sua força de trabalho por um prato de comida, sem salário

A promessa: um salário mensal de R$ 800, alimentação, assistência médica e alojamento pagos pela usina. A realidade: trabalhadores despejados numa vila, durante a madrugada, obrigados a procurar quartos para alugar. Alguns chegam a dormir ao relento até encontrar espaço para repouso. Mesmo com a carteira assinada, foram meses de trabalho sem pagamento. Para não passar fome, a saída era comprar comida no barracão da usina, a preços superfaturados. Uma lata de leite Ninho custava R$ 10. A cesta básica, R$ 65. Um pesadelo que só acabou no dia em que a fiscalização da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) apareceu na Usina Alcopan, no município de Poconé, a 100 quilômetros de Cuiabá, e libertou os 318 canavieiros nordestinos que eram mantidos em regime de trabalho escravo.

Alguns trabalhadores desse grupo foram localizados na cidade de Joaquim Gomes, na zona canavieira de Alagoas. O bóia-fria Antônio Otaviano Júnior, 22 anos, se emociona ao lembrar os dias de sofrimento vividos na safra do ano passado. “Fomos enganados pelo ‘gato’. Ele prometeu que toda a despesa ia ser por conta da usina. Quando chegamos, a vida era de escravidão. Não tinha salário, só vale. A gente pegava a comida no barracão e ia assinando um pedaço de papel. Eles não botavam preço em nada. Depois, saíam descontando tudo”, recorda o cortador de cana, prometendo que nunca mais põe os pés em Mato Grosso.

A reportagem visitou a Usina Alcopan e constatou as péssimas condições de trabalho. Os banheiros são precários e os alojamentos só agora estão sendo reformados, após reiteradas multas aplicadas pela DRT. Por ser início da safra, poucos canavieiros trabalhavam na lavoura. Entre os que se encontravam no alojamento, todos denunciaram a mesma situação: estavam com salário atrasado, se sentindo enganados e querendo voltar para casa.

É a necessidade de migrar, para sustentar a família, que leva os cortadores de cana nordestinos a cair nesses esquemas de aliciamento. O relato da dona de casa alagoana Tatiene Rodrigues Cavalcante, 22, é ainda mais revoltante. Esposa do canavieiro Gilvan Nivaldo de Souza, um dos trabalhadores libertados, ela diz que a família voltou para o Nordeste com apenas R$ 10 no bolso. “Passamos fome por causa dessa usina. Na ida, vendemos geladeira e fogão para pagar a passagem. Os móveis que sobraram, a gente levou no ônibus. Mas, na volta, tivemos que tirar tudo da mala para dar lugar a uma moto comprada pelo ‘gato’”, conta a jovem. O marido está de novo fora de casa. Desistiu de Mato Grosso e agora foi tentar sorte melhor numa usina de São Paulo.

O “gato” a que Tatiene se refere chama-se Severino Militão, 29, que também mora em Joaquim Gomes. Em Mato Grosso, ele fez fama. Há anos agenciando peões, seu nome consta em relatórios da DRT e da Polícia Rodoviária Federal. Quando o jornal esteve em Cuiabá, existia uma ordem de levá-lo para interrogatório na polícia, caso fosse pego em algum ônibus clandestino de bóias-frias. No interior de Alagoas, a reportagem encontrou Militão em casa, onde uma moto nova, com placa de Mato Grosso, dividia espaço na sala com dois sofás e uma estante, com televisor, som e DVD.

“Parei com essa atividade, desde 2004”, garantiu. Minutos antes de conversar com Militão, a reportagem havia colhido depoimentos de bóias-frias que tinham sido convidados pelo agenciador, poucos dias atrás, para trabalhar em Mato Grosso. No dia 11 de maio, quando novamente retornou a Joaquim Gomes, a equipe descobriu que, na noite anterior, dois ônibus tinham saído da cidade lotados de peões para cortar cana no Centro-Oeste. O destino: Usina Alcopan. O agenciador: Severino Militão.

ENTREVISTA/SEVERINO MILITÃO

“Eu nunca fui preso em flagrante” Publicado em 28.05.2006

O agenciador Severino Militão concordou em conversar com a reportagem, mas se negou a tirar fotos. Alegando ter colocado “a mão na consciência”, ele passou toda a entrevista repetindo que havia parado de transportar bóias-frias para Mato Grosso.

JORNAL DO COMMERCIO – O senhor agencia cortadores de cana para trabalhar nas usinas e fazendas de Mato Grosso?

SEVERINO MILITÃO – Desde a safra de 2004 que eu parei. No ano passado, fui chamado pela delegacia de Maceió (Delegacia Regional do Trabalho) e disseram que eu ia ser enquadrado como aliciador de trabalho escravo branco. Aí eu acabei com essa história. Tem outros jeitos de ganhar dinheiro sem mexer com isso.

JC – Mas o transporte ainda existe.

MILITÃO – Que existe, existe. Agora eu estou fora. Só mexo com agência de viagem no ramo de turismo. Transporto comerciantes, empresários, gente que negocia.

JC – O senhor responde a algum processo na Justiça por causa de suas atividades?

MILITÃO – Não, porque eu nunca fui pego em flagrante. Se eu fosse preso, ia deixar de ser primário, ia sujar minha ficha. Agora tem amigo meu que já foi processado, que está atrapalhado com a Justiça.

JC – Quanto o senhor ganhava para levar os cortadores de cana para as usinas de Mato Grosso?

MILITÃO – Dois salários mínimos e 4% de comissão em cima da produção do peão. Mas a gente dava assistência a eles. Porque não é só ser agenciador, tem que dar assistência.

JC – Na safra do ano passado, o senhor levou alguém para a Usina Alcopan, no município de Poconé?

MILITÃO – Não levei nenhum cortador no ano passado. Como eu já lhe falei, parei com esse negócio.

JC – Por que o senhor parou, então?

MILITÃO – Eu coloquei a mão na consciência. É um negócio errado levar esse pessoal sem carteira assinada, feito clandestino. Só tinha futuro se fosse para sair daqui (do Nordeste) com o pessoal já fichado. Diferente disso é dor de cabeça para mim e para os trabalhadores. Agora, eu só levo se a empresa quiser contratar logo daqui.

JC – O senhor já conheceu algum caso de trabalho escravo em Mato Grosso?

MILITÃO – Isso não existe. É conversa. Tem muita gente também que faz corpo mole. Pensa que é só chegar e ganhar dinheiro. Além disso, as pessoas vão para lá porque querem. A gente mora num país democrático. Ninguém pode impedir a pessoa de ir trabalhar em outro Estado.

Humilhados longe de casa Publicado em 28.05.2006

Pernambucanos encontraram desprezo e discriminação em Mato Grosso. Usina se negou a contratar os peões de Joaquim Nabuco, que passaram fome e perderam a dignidade

José Manoel queria uma moto. Abraão pensava em comprar a casa própria. João Batista, um aparelho de som e a cerâmica da cozinha. O sonho não durou uma semana. Eles saíram de Pernambuco no mesmo ônibus clandestino em que a reportagem viajou, com a promessa de que seriam contratados pela Usina Barra Álcool, no município de Barra do Bugres. Três dias depois da chegada na cidade, a equipe reencontrou os 17 peões, todos vindos de Joaquim Nabuco, desempregados, humilhados, com fome e prestes a ser despejados da pensão. Alegando que não estavam recrutando canavieiros de Pernambuco, a usina simplesmente descartou os trabalhadores. O plano de juntar uns trocados e levar para casa o dinheiro conseguido no corte de cana esbarrou no preconceito. Sem um centavo no bolso e sem trabalho, os migrantes foram obrigados a dormir no chão do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município para fugir do relento. Era só o início do pesadelo.

Os bóias-frias viajaram mais de 3 mil quilômetros atrás de emprego e dignidade e só encontraram discriminação e desprezo em Mato Grosso. Quando a comida trazida na viagem acabou, dependiam do arroz e do feijão conseguidos por meio de doação. Foram punidos por uma greve feita por outros cortadores de cana pernambucanos, durante a safra do ano passado. Peões que o grupo nem conhecia. Mas, como eles representam apenas uma mão-de-obra migrante, foram tratados como se fossem todos uma coisa só.

“Fomos chutados como cachorro morto”, disse José Manoel da Silva Filho, 32 anos, um peão analfabeto que, diante de tamanha adversidade, terminou se transformando numa espécie de líder do grupo. Ele era um dos mais revoltados. Numa cidade estranha e distante de casa, Manoel se sentiu um mendigo. “Sem dinheiro no bolso, sem ter onde dormir e comendo de favor”, comparava. Passou por uma provação que nunca havia experimentado, nem nos tempos mais difíceis de desemprego em Joaquim Nabuco.

Os canavieiros recorreram ao sindicato para tentar obrigar a usina a pagar a passagem de volta, já que o grupo havia sido levado pelo “gato”, após acerto feito com a empresa. José Mariano da Silva, 39, o agenciador, repetia o tempo todo que teve autorização da Barra Álcool para recrutar os trabalhadores para Mato Grosso. Mas a relação de forças era desigual demais. Era a palavra de um “gato” contra a da usina. Sem nenhum documento formal que comprovasse a ligação, o desfecho já era esperado. A Delegacia Regional do Trabalho (DRT), em Cuiabá, disse que não podia fazer nada, porque não tinha como responsabilizar a empresa. O sindicato, a mesma coisa. Restava aos migrantes pernambucanos conseguir por conta própria o dinheiro para voltar para casa.

Desesperados, eles bateram em todas as portas. DRT, sindicato, tentaram até o gabinete do prefeito. Não conseguiram um centavo para ajudar na passagem. No máximo, uma carona até Cuiabá, que pouco adiantaria. “Eu nunca pedi esmola. Mas, se for preciso, eu peço. Faço tudo para ir embora daqui”, disse João Batista da Silva, 27. Ele estava transtornado. Logo depois de sua partida, a filha de 7 meses adoeceu e foi internada. Nas vezes que ligava do orelhão, nunca conseguia conversar com a mulher e ter mais notícias do bebê.

O sofrimento de José Francisco da Silva, 28, era curtido no silêncio. Ele era um dos mais calados do grupo. Quando falava, era dos filhos. As fotos de Antônio, 10, e Daniela, 8, vieram, cada uma, num porta-retratos enrolado nas roupas. “É por eles que eu estou aqui. Eles são minha força”, dizia. Os trabalhadores precisavam fazer milagre com os poucos cartões telefônicos comprados ainda em Pernambuco. Os créditos eram partilhados, para que todos pudessem falar com a família e ver o que era possível juntar de dinheiro.

No fim, o grupo terminou dividido. Uns saíram à procura de emprego. Outros só pensavam em voltar. José Francisco queria retornar de todo jeito: “Essa humilhação eu não passo nunca mais. Vou chegar fracassado em casa, mas chego alegre.” Severino Batista da Silva, 26, topava o que aparecesse. Antes de viajar, tinha contraído uma dívida de R$ 350 para fazer uma feira e completar a passagem. Não podia voltar sem nenhum centavo no bolso.

Finalmente, numa sexta-feira, dia 7 de abril, sete bóias-frias embarcaram num ônibus para Joaquim Nabuco, exatos oito dias depois de terem chegado à mesma praça, prontos para passar oito meses em Mato Grosso. O cortador de cana Abraão Ferreira, 31, era um lamento só. Ele nem teve chance de cumprir a promessa que fez quando deixou a família, em Pernambuco. Disse à mulher que mandaria dinheiro assim que recebesse o primeiro salário. Mas foi ela quem teve que arrumar, com os vizinhos, R$ 150 para o marido poder voltar para casa.

DRT ignora aventuras de canavieiros Publicado em 28.05.2006

A migração temporária de milhares de bóias-frias para cortar cana em Mato Grosso é uma realidade ignorada pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT), em Pernambuco. Fosse depender dos dados oficiais, as histórias contadas neste caderno especial não poderiam nem existir. Por uma razão simples: não há um único registro na DRT da saída desses migrantes para se aventurar em usinas mato-grossenses. Isso significa que todos os ônibus que partiram de Pernambuco com esse objetivo eram clandestinos. Não carregavam um único canavieiro com carteira assinada ainda na cidade de origem, uma exigência legal para o transporte de peões que vão trabalhar em outros Estados.

A pedido da reportagem, a DRT fez um levantamento para verificar todas as certidões liberatórias emitidas, este ano e no ano passado, para as usinas que utilizaram mão-de-obra migrante nordestina. Dos 834 trabalhadores que obtiveram o documento, nenhum foi para Mato Grosso. Os destinos eram Espírito Santo, São Paulo, Tocantins, Goiás e Mato Grosso do Sul. A certidão é a garantia de que o trabalhador teve a carteira assinada antes da partida, uma espécie de passaporte – fundamental para garantir que, ocorrendo qualquer problema durante a safra, a empresa tem obrigação de custear a volta do peão para casa.

Se tivesse saído com a carteira assinada na mala, o grupo de cortadores de cana de Joaquim Nabuco certamente não teria passado as privações e humilhações que passou no interior de Mato Grosso. “A ausência do poder público alimenta a clandestinidade e aumenta as chances de o canavieiro ser alvo de exploração e de escravidão distante de casa. O transporte clandestino, que nós chamamos de tráfico de trabalhadores brancos, é o começo de tudo”, afirma o auditor fiscal da Delegacia Regional do Trabalho, em Mato Grosso, Valdiney Arruda.

A delegacia, em Cuiabá, tem feito sucessivos esforços para coibir o trabalho escravo nas lavouras de cana-de-açúcar e áreas de desmatamento do Estado, mas ainda está perdendo a guerra contra o transporte clandestino. Valdiney Arruda propõe que sejam feitas operações integradas entre a DRT, a Polícia Rodoviária Federal e o Ministério Público das duas regiões. É a única forma, avalia, de atacar os aliciadores. Afinal, os problemas criados com a migração temporária nascem nas cidades nordestinas, mas vão estourar em Mato Grosso.

Latifúndio é o maior algoz dos bóias-frias Publicado em 28.05.2006

Da janela da casa do trabalhador José Manoel da Silva, em Joaquim Nabuco, avista-se um mundo de cana. Para todos os lados onde se olha, o verde do canavial impera. A paisagem é o retrato de um drama. Está na gênese do processo migratório da Zona da Mata nordestina. Os grandes latifúndios e o desemprego sempre expulsaram o trabalhador do campo. Situação que permanece inalterada. Um estudo feito pela professora Christine Dabat, do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mostra que a concentração de terras na região canavieira do Estado continua tão violenta quanto antes.

A pesquisadora comparou o cadastro fundiário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), divulgado em 1986, com dados atualizados de 2001. A situação de Joaquim Nabuco é exemplar. Somando todos os imóveis com mais de 100 hectares, eles representam quase 85% das terras cultiváveis do município. Os especialistas consideram que 10 hectares seria a área de tamanho mínimo para evitar o êxodo e garantir a sobrevivência de uma família camponesa na Zona da Mata pernambucana. Em Joaquim Nabuco, propriedades desse tamanho não chegam a ocupar 1% das terras da cidade.

ENTREVISTA/SUZANNA SOCHACZEWSKI Esses peões vivem no tempo das cavernas” Publicado em 28.05.2006

A socióloga Suzanna Sochaczewski coordena grandes projetos no Dieese, em São Paulo, entidade que realiza estudos econômicos. Ela analisa a situação dos bóias-frias em pleno século 21.

JORNAL DO COMMERCIO – A senhora propõe que o trabalho deve produzir vida, recuperar a promessa dos primórdios do capitalismo. Como incluir a legião de canavieiros migrantes nessa lógica?

SUZANNA SOCHACZEWSKI – O trabalho sempre produz vida. Agora essa vida pode ser humana ou desumana. É inadmissível que, em pleno século 21, um trabalhador rural temporário viva em condições tão precárias, com remunerações aviltantes. Isso numa época em que as pessoas têm escola, moradia, educação, saúde. Se nós ainda estivéssemos no tempo das cavernas, esse trabalho poderia ser considerado normal, mas nós estamos no século 21, o século da tecnologia e da informação. Mas, para trabalhadores migrantes, essa parece uma realidade impossível. Eles continuam no tempo das cavernas.

JC – Há uma acomodação dos próprios migrantes na relação com as usinas. Os sindicatos de Mato Grosso reclamam que os nordestinos não se mobilizam...

SUZANNA – Isso tem uma explicação muito triste, uma explicação sociológica que é a seguinte: quando você está muito perto da luta pela sobrevivência imediata, e esses migrantes estão, você vai perdendo a necessidade das outras coisas. O que é importantíssimo para você é a luta pelo pão de hoje, no máximo, pelo pão de amanhã. O instinto é de sobrevivência. As outras necessidades, que ajudariam nessa mobilização para sair do nível mais baixo da vida, simplesmente não existem. Perde-se a necessidade da beleza, do descanso, da convivência familiar, do riso.

JC – Esses trabalhadores não têm direito sequer à greve. Se eles fazem alguma reivindicação, são logo substituídos.

SUZANNA – Um dos principais motivos que faz com que esse trabalhador tenha muita pouca força é a facilidade de o empresário substituir a mão-de-obra. Você tem cem trabalhadores do lado de fora dando a vida para ganhar uma ninharia, mesmo em condições degradantes. Porque isso é melhor do que nada.

JC – Até pela baixa formação, não há horizonte de inclusão desses trabalhadores no mercado de trabalho mais urbano, mais digno. Eles estão condenados a viver como bóias-frias?

SUZANNA – Veja bem, o socialmente correto e justo seria que o trabalho braçal fosse tão bem remunerado quanto outros. Ele deveria estar dentro de um código de direito tão rígido e amplo quanto qualquer outro trabalho. A gente não pode fazer a diferença, dizendo que o trabalho mais qualificado tem mais direito do que os menos qualificados. Quem planta, colhe ou corta cana precisa ter os mesmos benefícios que um trabalhador de uma fábrica moderna, de um banco. O princípio de respeito à condição humana tem que ser o mesmo para todos. Eles não precisam ter que deixar o corte de cana para ser tratados com dignidade.

Sofrimento que gera riqueza Publicado em 28.05.2006

Suor de migrantes garante crescimento da indústria canavieira de Mato Grosso, que movimenta R$ 1 bilhão por ano

Trabalhadores em baixa, negócios em alta. Com os preços do álcool supervalorizados e as exportações em franco crescimento, o Brasil vive um novo ciclo da cana-de-açúcar. A história já viu esse filme. Como no passado, a mão-de-obra migrante nordestina alimenta os caldeirões das usinas e bota para moer uma indústria nacional que hoje movimenta, por ano, R$ 40 bilhões. As condições desumanas de trabalho nos canaviais criam dois mundos inconciliáveis: o país dos bóias-frias analfabetos e mal remunerados sustenta o Brasil do agronegócio, da eficiência e da produtividade. Impera a mesma lógica de exploração de antes. Mas o setor não tem do que reclamar. O mercado coleciona números recorde de produção e os investimentos previstos representarão mais 89 usinas funcionando no País até 2010.

Todos os ventos sopram a favor. Lá fora, o açúcar brasileiro comemora o fim dos subsídios ao produto europeu, decretado pela Organização Mundial do Comércio (OMC). E, com os preços do petróleo nas alturas, o álcool é a bola da vez. No País, os veículos do tipo flex já alcançam mais de 70% das vendas de carros novos, com estimativas de, até o fim do ano, esse percentual chegar a 100% da produção de algumas montadoras. A preferência por automóveis bicombustível reacendeu o gosto dos investidores pela cana e as destilarias estão produzindo a todo vapor.

A fase áurea vivida pelo produto redesenha o mapa agrário nacional. Tradicional reduto da soja, Mato Grosso quer virar um dos grandes produtores de açúcar e álcool. Comparado a São Paulo, que detém 60% da produção brasileira, o Estado ainda tem uma participação modesta. Responde por apenas 5% do mercado produtor. Mas a cada nova safra as lavouras de grãos e as áreas de pastagens vão sendo engolidas pelas plantações de cana-de-açúcar. Na região de Denise, cidade a 230 quilômetros de Cuiabá, a mudança foi radical. Há cinco anos, a pecuária dominava a paisagem do campo. Hoje 70% das terras do município foram transformadas em extensos canaviais. Os antigos fazendeiros estão descobrindo que plantar cana é melhor do que engordar gado.

É uma questão de lucratividade, para falar a linguagem que o capitalismo entende bem. O Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras de Mato Grosso faz as contas. Existem atualmente 216 mil hectares cobertos por cana no Estado, gerando um faturamento de R$ 1 bilhão por ano. Já a soja representa 6 milhões de hectares de área plantada. A comercialização do produto movimenta R$ 4 bilhões por ano. Trocando em miúdos, numa área 28 vezes menor do que a da soja, a cana consegue 25% da rentabilidade obtida com a venda do grão. “O preço do álcool está no seu melhor momento. É o produto mais lucrativo. O governo do Estado entendeu isso e está correndo atrás para criar subsídios e atrair investidores de outras regiões, inclusive do Nordeste, que tem tradição secular nesse setor”, afirma Sidney Ângelo de Souza, gerente administrativo do sindicato dos usineiros.

De fato, a técnica e o suor do cortador de cana nordestino estão no DNA da indústria sucroalcooleira de Mato Grosso. Foram os bóias-frias da região, sobretudo os pernambucanos e alagoanos, que ajudaram a pôr para moer as primeiras usinas do Estado, no fim da década de 80. Nordestino colhendo cana é sinônimo de eficiência. São produtivos e baratos. Os empresários do setor avaliam que os migrantes temporários cortam o dobro dos canavieiros “cuiabanos”, como são chamados os cortadores de cana nascidos em Mato Grosso. Os números mostram essa superioridade: dos 16 mil trabalhadores empregados durante a safra deste ano, 10 mil são mão-de-obra nordestina, sendo 8 mil cortadores de cana.

Das primeiras moagens para cá, os investimentos no setor só fizeram crescer. Mas os avanços priorizaram a tecnologia e esqueceram o trabalhador. Na Usina Itamaraty, que tem 80% da colheita mecanizada, o pernambucano José Romão Gomes, 43 anos, opera uma colheitadeira de R$ 1 milhão. Sozinho, em cima da máquina gigante, faz o trabalho de 150 peões iguais a ele. O salário na carteira é de R$ 480, mas José Romão consegue fazer até R$ 1.000, trabalhando 12 horas por dia. “Se brincar, não dá para comprar um parafuso dessa engenhoca”, diz o pernambucano, que começou a cortar cana aos 12 anos e parou de estudar na 4ª série.

Morte e vida de um sonho Severino

Publicado em 28.05.2006