Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Querido presidente Lula, que o mundo pode acabar, a gente já sabe. Ou melhor, que a existência humana na terra pode chegar ao fim, não há mais como duvidar. Aquele tempo, que chamávamos de futuro, e tinha dentro dele catástrofes ambientais gigantescas, chegou. Em níveis diversos, e com propósitos também diversos - você já deve ter observado isso - a humanidade tem apresentado caminhos de salvação. Os povos da natureza estão propondo a salvação da vida. As empresas e governos a salvação do capitalismo.

João do Vale é membro da Comissão Pastoral da Terra, educador popular e professor universitário

No meio disso tudo, incentivado, principalmente, por governos e empresas europeias, acontece o que estão chamando de transição energética, que seria, em síntese, deixar de usar fontes energéticas que emitem CO2 e causam o efeito estufa. Deixar de usar combustíveis fósseis - que emitem dióxido de carbono -, incentivando, assim, a instalação de usinas que produzem eletricidade a partir do vento e do sol. Até aí a história parece ser bem interessante. Porém, presidente Lula, tem uma outra parte dessa história que pouca gente tem contado, e que sem ela a conversa acaba se tornando mentirosa. 

Presidente Lula, seria menos trágico se o que está nos levando ao fim do nosso mundo – ou queda do céu, como chamam os Yanomami -  fosse somente as emissões de CO2. Assim, bastava mudar a matriz energética e não haveria mais o que se preocupar, viveríamos igual aqueles quadros antigos que retratavam o paraíso, com pessoas loiras fazendo piquenique com leões. Lembra desses quadros, presidente Lula?

Pois é, nem o paraíso loiro apresentado no quadro, nem a solução que vem sendo apresentada pelo capitalismo para a crise ambiental são reais. Não há como frear o fim do mundo, presidente Lula, sem rever a lógica do consumo sem limites, sem frear a mineração que tem cavado nossa cova, sem parar com a derrubada das florestas – todas elas, não só a amazônica. Sem se preocupar com o desaparecimento de espécies, com a poluição de rios e mares. Sem questionar o capitalismo. 

A emissão de gases de efeito estufa é apenas um problema, dentro de vários outros. Porém, é o problema que o capitalismo percebeu que pode mexer sem deixar de ser capitalismo. Sem deixar de ser violento, ecocida, opressor e desigual. E, de quebra, ganhar muito dinheiro com isso. A solução que nos tem sido apresentada – ou melhor, empurrada – é a de mudar o modelo energético sem questionar o padrão de violência contra a natureza, contra os povos da natureza e a lógica de consumo. Ou seja, na verdade, na verdade, a chamada transição energética – ou pelo menos o modelo que a Europa está impondo e o Brasil está adotando de maneira irresponsável - não carrega consigo uma preocupação com o meio ambiente, mas é tão somente um jeito de colocar uma roupa nova no capitalismo.  

O Brasil tem hoje 916 parques eólicos funcionando, a maioria no Nordeste, quase todos no sertão. Como eles têm se espalhado mais rápido do que conversa ruim, em poucos dias esse número não será verdadeiro. O argumento para a implementação desses parques – e para seu contínuo avanço – volto, é o da transição energética. 

Porém, presidente Lula, o Brasil faz muito tempo que já utiliza energia renovável. Mais de três quartos de nossa eletricidade é produzida por uma matriz de energia considerada renovável e limpa, que são as hidroelétricas. O problema delas é outro e tem sido repetido pelos empreendimentos eólicos. Presidente Lula, se formos pesquisar direitinho – e nem precisa do ChatGPT – vamos ver que 73% do dióxido de carbono no Brasil é emitido pelo agronegócio. Por que, presidente Lula, não fazemos uma transição do modelo do agronegócio para o da agricultura tradicional camponesa, que é tradicionalmente não poluente?

A Europa não chega a um quinto de eletricidade produzida por fontes renováveis. E por que essa tal de transição está acontecendo aqui? Essas empresas de energia eólica, que passaram a ter controle total sobre os territórios camponeses, chegam em nosso país por um cálculo de mercado, e por encontrar aqui no Brasil uma legislação permissiva, que não regula – nem quer regular – praticamente nada sobre o tema. Esses dias, em um jornal de grande circulação, a chamada de capa era: Brasil, a Disneylândia das energias renováveis. A nossa vida, presidente Lula, para os gringos, é lugar de diversão. Ou melhor, ou pior, de enriquecimento. 

E o que esses mais de novecentos parques eólicos tem causado onde chegaram? Muito sofrimento. Como assim? Explico: 

Os parques – ou usinas – eólicas são instalados em territórios de comunidades camponesas e povos tradicionais, porém fingindo que elas não existem. Derrubada de árvores centenárias, promessas de coisas que nunca são cumpridas, contratos abusivos e ameaças é a metodologia usada pelas empresas – e apoiados pelos governos - para se instalar nesses lugares. As famílias perdem o direito de conviver com seus lugares e assumem a função de inquilinos. Como o governo federal tem incentivado o latifúndio de energia eólica, as comunidades são inundadas por imensas torres instaladas a poucos metros das casas, roçados e lugares de criação de animais.

Essas torres – chamadas também de aerogeradores – fazem, dia, noite e madrugada, sem parar, um barulho enlouquecedor – sem exagero algum na palavra - que impede as pessoas e bichos de dormirem. Não conheço nenhuma comunidade que esteja feliz vivendo com parques eólicos em seus territórios. Na verdade, arrendar a terra para a instalação de torres eólicas só tem valido a pena para latifundiários que não vivem nela. Quem, por assinar um contrato, é obrigado a viver ao lado do barulho de um parque eólico está tendo que escolher entre gastar o dinheiro com medicamentos para depressão ou sair de seu lugar ancestral e pagar o aluguel de uma casa na periferia de alguma cidade. 

Presidente Lula, Dona Alzira, rezadeira, a pessoa mais idosa da Comunidade de Sobradinho, está com a pele do corpo caindo. Um pó tóxico liberado das torres eólicas cai sobre o telhado das casas, é levado pela chuva para as cisternas e ingerido por Dona Alzira e sua família. Dona Alzira fez um empréstimo para comprar os medicamentos, já que o salário mínimo que recebe de sua aposentadoria não permite comprar. Saiu ganhando o banco e o parque eólico, que se procurar direitinho corre o risco de pertencerem aos mesmos acionistas. 

Na Comunidade de Pau Ferro, os porcos criados por Seu José estão tentando suicídio. O estresse causado pelo barulho dos aerogeradores tem os levado a automutilar-se até a morte. Na Comunidade Quilombola do Cumbe, os moradores, em sua maioria pescadores e pescadoras, dependem da permissão do parque eólico para visitar o cemitério, os lugares sagrados e o mar, que está cercado. Presidente Lula, já visitei comunidades que depois da chegada do parque eólico, ao menos uma pessoa por família passou a usar antidepressivos e ansiolíticos. Um adoecimento generalizado. Por não conseguirem dormir em razão do barulho, pressão alta, diabetes e problemas cardíacos passaram a ser cada vez mais comuns. 

Imagino, presidente Lula, que você dorme uma noite silenciosa. Que no palácio da alvorada as emas não perturbam seu sono. Infelizmente quem viu uma torre eólica erguer-se a poucos metros de sua casa não desfruta do mesmo direito. Já imaginou você ter um problema e não conseguir dormir para descansar um pouco o juízo? E você estar doente e ter que conviver com um barulho insuportável ao seu lado? E uma criança? E um idoso? E as abelhas e passarinhos que sumiram quando os parques eólicos chegaram? O governo federal sabe disso tudo. Em todos os estados do Nordeste há comunidades articuladas fazendo as denúncias e cobrando uma solução, o governo permanece fingindo que nada está acontecendo, em silêncio. Ao contrário dos aerogeradores.

Esses parques eólicos ocupam dois, dez, vinte mil hectares cada e passam a ter controle sobre tudo que acontece. Nesses mais de novecentos parques em funcionamento, quantos milhões de hectares estão nas mãos de empresas estrangeiras? Dois, três, cinco milhões?

Presidente Lula, em suas viagens pela Europa você tem dito que o Brasil está disposto a ajudar na transição energética mundial com os parques eólicos no mar, chamados off shore – afinal, tem que ter um nome em inglês. Vamos traduzir isso tudo? Não satisfeitos com os quinhentos anos de colonização de nossas terras, agora estamos chamando os colonizadores para privatizar nossos mares. É bem triste ver que a atitude do governo tem sido oferecer os territórios da pesca artesanal à Europa. Qual seria a palavra em inglês pra isso? 

Lembro que na última eleição, em que te defendemos a sonho e suor, presidente Lula, tínhamos a preocupação que você repetisse os mesmos erros em relação à natureza e aos povos da natureza. O que vemos agora é que não só repete os mesmos erros, como insiste em cometer erros novos. E o principal deles, e de onde saem a maioria dos outros, é de não levar a sério o que dizem os povos da natureza...

É sem discussão, presidente Lula, que já entrasse para a seleta lista dos presidentes que se preocuparam com a população pobre de um país. O mundo reconhece isso. Agora, presidente Lula, você tem uma chance de ser ainda mais do que isso, a de entrar para o ainda mais seleto grupo de lideranças que se preocuparam com a natureza e com a sobrevivência humana na terra. Você, presidente Lula, pode ficar pra história como um dos poucos presidentes que ouviu o povo que mora dentro das matas, nas margens de rios e mares, no pé do mangue e no alto das serras sobre o que fazer pra salvar a natureza. Por quê, presidente Lula, você optou por não fazer isso?

O que o governo tem dito, a propaganda que tem sido feita sobre a transição energética, sobre os parques eólicos, presidente Lula, é um mundo de fantasia, que seria muito bom que fosse realidade, mas não é. Não há como achar que empresas multinacionais, que a Europa, vai deixar de ser colonizadora. Ela, elas, vivem faz mais de cinco séculos às custas de nosso sofrimento. Existe uma expressão chique que aprendi: Zona de Sacrifício. Mas há como esperar que um governo eleito pelos povos da floresta, pelos movimentos sociais, pelo Nordeste, poderia realizar uma “transição energética” – as aspas, lembro, são merecidas – que não fosse às custas do sofrimento do nosso povo. 

É ruim perceber que mais uma vez os de sempre – empresas capitalistas - ganham, e também os de sempre – povos da natureza – perdem, nisso que chamam de progresso, de desenvolvimento. Presidente, o que nós, que somos seres da mata, da zona rural, do mato, queremos, é continuar ouvindo o canto dos pássaros, o sopro o vento, o berrar da cabra. É continuar chamando o sossego de companheiro. E, pela primeira vez depois da invasão, ter uma paz duradoura. Mas vocês – aí, infelizmente, tenho que te incluir presidente Lula - não estão deixando. A pergunta que teima em ficar é: por que perde essa chance, presidente Lula?

 

Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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