Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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A “Campanha Contra Violência no Campo: em defesa dos povos do campo, das águas e das florestas” chegou ao 18º Congresso Eucarístico Nacional com a participação de camponeses e camponesas dos estados de Alagoas, Paraíba e Pernambuco. O encontro ocorreu na tarde da segunda-feira, 14, no Auditório Brum do Centro de Convenções, em Olinda (PE). Iniciada com uma romaria simbólica que percorreu o congresso, a atividade foi marcada por espiritualidade, memória aos mártires da luta por terra e território, exibição do vídeo da campanha, explanação sobre suas diretrizes e os dados dos conflitos no campo, além de fortes testemunhos de vítimas da violência no campo.

Carlos Lima, historiador e coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), explicou que o aumento dos conflitos agrários nos últimos anos coincide com o momento em que a democracia brasileira é afetada. A campanha observa que entre 2016 e 2021, ou seja, desde o golpe que culminou no impeachment de Dilma Roussef, o cenário de violência no campo foi agravado. “O desafio é enraizar a campanha para que ela cresça dentro das comunidades, territórios, das bases”, disse.

A advogada e coordenadora nacional da CPT, Andréa Silvério, apresentou os dados preliminares dos conflitos no campo em 2022. Ela destacou que neste ano, até o momento, a CPT registrou 31 assassinatos por conflito no campo. Esse número já é maior que o total de assassinatos em 2018 e 2020. Desses 31 assassinatos, 25 ocorreram ainda no primeiro semestre. Em relação ao mesmo período do ano anterior, o aumento é de 150%. Entre as soluções propostas para o problema da violência no campo estão o compromisso com a reforma agrária, a demarcação de Terras Indígenas e comunidades camponesas, a garantia dos direitos constitucionais, o combate à impunidade e o fortalecimento das instituições públicas. “O fortalecimento de instituições como Incra, Funai e Ibama são fundamentais para que possamos alcançar o fim da violência no campo”, disse Andréa.

Emocionado, o agricultor José Domingos relatou o sofrimento que é perder todo seu trabalho e investimento na lavoura. O seu sítio na comunidade Mulandir, no município de Jaqueira (PE), foi envenenado por meio de drones. “Nessa semana, quando eu cheguei na propriedade estava tudo queimado de veneno. Tinham jogado veneno no sítio completo, 2 hectares de terra. Eu perdi tudo. Sabe o que é tudo? Dois mil pés de banana, noventa e cinco pés de limão – tudo ‘safrejando’. Hoje eu não tenho nada. Só a casa. Dependia da lavoura, e hoje, vou fazer o quê? Como vou sustentar minha família se minha renda era o sítio? Está uma destruição”, contou Domingos. “Eu peço que algum órgão público me ajude a vencer. Eu não vou desistir. Eu vou lutar”, concluiu.

Outro testemunho chocante veio de Amanda Maria, do acampamento Laranjeiras, no mesmo município. Ela afirmou que seu pai foi um dos afetados duas vezes pela violência promovida mesma empresa responsável pela destruição da lavoura de José Domingos. A primeira situação ocorreu na área chamada Bananal e a segunda no sítio Borracha. A jovem contou o que viu: “Eu presenciei o momento em que estavam incendiando a residência, a cocheira dos animais e as árvores. Vi as árvores sendo soterradas pelo maquinário. Sem contar a violência que a gente passou que não teve nem o direito de retirar os pertences que estavam dentro da casa”.

Chamou atenção no testemunho de Amanda a denúncia de violência contra mulheres e crianças. Segundo a camponesa, os seguranças das empresas usam da violência verbal não só contra as mulheres, mas também contra seus filhos. “Nossas crianças estão sendo violentadas, não tendo o direito nem sequer de brincar nessas áreas de conflito, pois vivem amedrontadas”, afirmou. Ela finalizou sua fala pedindo “violência zero” contra mulheres, crianças, árvores e fontes de água: “Violência zero, já! O que a gente quer é reforma agrária. Reforma agrária, já! Eu agradeço a oportunidade”.

“A gente precisa esperançar” – Com essa frase, Alcilene Bezerra, a coordenadora regional do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), destacou que a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições foi importante, mas é preciso continuar firme na luta para vencer a batalha contra a violência. “As comunidades indígenas também são beneficiadas com essa campanha, porque uma vez que a gente está divulgando a campanha, a gente está chamando atenção da sociedade e do Poder Público para essa realidade. Então, vamos esperançar, vamos nos unir, vamos divulgar a campanha, vamos levar essa campanha para fora, porque a incidência política faz diferença para as nossas vidas”, falou Alcilene.

Segundo Dom José Ionilton, bispo de Itacoatiara (AM) e presidente da CPT, os testemunhos são motivação para os organismos, pastorais e movimentos sociais. Em sua fala, Dom José ressaltou que a presença da CPT e do povo do campo no 18º Congresso Eucarístico Nacional, além de levar a Campanha Nacional Contra a Violência no Campo para o espaço, tem o objetivo “dizer que para nós, católicos, a fé em Jesus presente na eucaristia tem que ser compromisso social e, por isso, a CPT nasceu, o CIMI nasceu, e tantas pastorais sociais nasceram, a partir de campanhas da fraternidade, para fazer esse link entre a fé em Deus e o compromisso com os pobres e excluídos”.

Após o encerramento da apresentação da Campanha Nacional Contra a Violência no Campo, o espaço foi aberto para a explanação e relatos do projeto “Encantar a Política”, que tem o apoio da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Trata-se de uma iniciativa da Rede Brasileira de Fé e Política, formada por organizações, serviços, pastorais sociais e organismos da Igreja, que visa retomar questões centrais das encíclicas do Papa Francisco – Laudato Sí, Fratelli Tutti, Exortação Apostólica pós-sinodal e Evangelii Gaudium – que abordam a política como decorrência ética do mandamento do amor. A ideia é aplicar os ensinamentos do pontífice à realidade atual.

 

 

Fotos: Setor de comunicação da CPT NE2