Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Senti o peso do Estado sobre mim;
Senti o peso do Judiciário sobre mim;
Senti o peso do agronegócio da cana-de-açúcar, que não tem nada de doce, sobre mim;
Em alguns momentos a Cruz também pesava sobre meus ombros.

Qual o mal que eu fiz?
Será que é porque eu sou uma pescadora artesanal?
Será que é pelo fato de nascer e me criar em terras públicas e não ter o título de propriedade?
Será que é pelo fato de não aguentar ver os peixinhos, os caranguejos e os siris mortos pelo vinhoto fedorento da usina e ter que denunciar incansavelmente?

 

Porque querem tirar das ilhas eu e minha irmã, igual tiraram as 51 famílias que aqui viviam?
Porque querem cortar nossas raízes?
Porque querem nos des-terrar e nos des-águar?
Vocês sabiam que um peixe não vive foram d'água e nem a gente fora do manguezal?

É por isso que vários já morreram depois que foram expulsos das ilhas!
É por isso que Dona Antônia todo os dias sonha com as ilhas! Ela teve derrame e pede todos os dias para Deus levá-la. Dona Cosma também teve derrame!
É por isso que Seu Ivanildo, Dona Antônia, Seu Cavoeiro, Dona Zeza… tomam comprimido para pressão, hábito que não tinha quando moravam nas ilhas.
Será que querem nos matar?!
“Quem me matou foi a usina quando me tirou das ilhas”, uma vez respondeu pra mim Dona Antônia.

Estou sendo obrigada a sair das ilhas, eu e minha irmã.
Não me imagino fora daqui!
Não quero ir para a rua passar fome como os que foram expulsos!
A única coisa que a usina promete e cumpre é a nossa expulsão e uma vida de miséria.

Senti o peso do Estado sobre mim;
Senti o peso do Judiciário sobre mim;
Senti o peso do agronegócio da cana-de-açúcar, que não tem nada de doce, sobre mim;
Em alguns momentos a Cruz também pesava sobre meus ombros.

VOLTO!
VOLTAREMOS!
VAMOS VOLTAR!
SIM, SOU GUERREIRA DAS ILHAS!


Recife, 09 de novembro de 2010.

Poema escrito por Plácido Júnior, agente da CPT NE II, escrito no dia em que tudo se preparava para a retirada de Maria de Nazareth e Maria das Dores (Graça) das ilhas de Sirinhaém, lugar em que outras 53 famílias também viviam e foram expulsas pela Usina Trapiche. Nazareth e Graça nasceram e se criaram na Ilha Constantino.

 

EU VI

Eu vi o Judiciário cair de podre.
Eu vi a justiça ultrajada
e os operadores do direito assassiná-la.

Eu vi um Estado indiferente.
Eu vi um Estado de um dono só
que não se interessa pelas vidas diversas.

Eu vi a desumanidade do desumano expressa na usina.
Eu vi seu bueiro exalando fumaças
com cor e cheiro de gente.

Judiciário, Estado e Usina
Usina, Estado e Judiciário
Estado, Judiciário e Usina.

O que importa a ordem
se na des-ordem da Zona da Mata de Pernambuco
são peças do mesmo sistema?

Eu vi!


ATO DE FÉ

Parem, Parem, Parem.
A justiça não morreu!
Fala com os olhos de confiança

Parem, Parem, Parem.
A lei dos homens e das mulheres é falha!
Fala com os olhos brilhando de desconfiança.

Entendam, Entendam, Entendam.
Vocês não são maiores que a Justiça de Deus.
Fala com os olhos cheios de fé!

Confio na Justiça!
Desconfio da lei dos homens e das mulheres!
Tenho fé na justiça de Deus!

De que Justiça estamos falando?
De que homem e mulher estamos falando?
De que Deus estamos falando?


Poemas escritos por Plácido Júnior, agente da Comissão Pastoral da Terra - Regional NE II

 

 

 

 

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