Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Famílias do engenho Fervedouro, em Jaqueira (PE), foram surpreendidas com presença de dez viaturas da Polícia que foi ao local para executar um mandado de prisão temporária e de busca e apreensão na comunidade. O fato ocorreu no último dia 16 de junho. 10 famílias tiveram suas casas revistadas. Três agricultores e uma agricultora foram levados à delegacia para prestar esclarecimentos. Foi dada ordem de prisão ao camponês José Severino Elias da Silva e a Adson Michael da Silva. A comunidade ficou perplexa, sem compreender os motivos pelos quais a operação foi realizada.

O mandado de prisão temporária e de busca e apreensão alegou um “suposto envolvimento” de agricultores da região com o tráfico de drogas e de armas. Na operação, contudo, nenhuma droga foi encontrada, como é natural numa comunidade de agricultores e agricultoras, onde ninguém tem antecedentes criminais ou envolvimento com tráfico ou outros ilícitos. Apenas uma espingarda de caça antiga foi apreendida. Todos os agricultores, presos e detidos, já foram liberados e encontram-se em suas casas.

O mandado afirmava estar fundamentado em depoimentos como o de um homem apontado como o gerente da empresa Agropecuária Mata Sul S/A, a mesma que vem travando uma disputa violenta pelas terras onde há mais de setenta anos vivem as famílias. A Comissão Pastoral da Terra ainda não teve acesso ao inquérito inicial que resultou na decisão judicial, mas já acionou a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos e o Programa de Proteção a Defensores e Defensoras de Direitos Humanos para que acompanhem o caso, além de reivindicar apuração completa do ocorrido.

Assustada e indignada com a violência da operação policial, a comunidade denuncia que ela foi abusiva e desnecessária e reivindica explicações e providências das autoridades superiores do Governo. As famílias consideram que a operação foi conduzida e motivada apenas para intimidar e desmoralizar a sua luta pelo direito a terra alvo de disputa com a empresa Agropecuária Mata Sul S/A.

A humilhação que as famílias não conseguem esquecer

“Quero justiça, quero saber quem foi na delegacia [acusar]. Vai ter que provar. Isso foi um falso muito grande que fizeram na comunidade. Aqui somos trabalhadores e trabalhadoras e estamos lutando pelas nossas terras, para todo mundo ficar com seu pedaço de terra para trabalhar e para sobreviver. A palavra de Deus diz que os humilhados serão exaltados. Quero justiça”, enfatiza Valderice Severino da Silva, agente comunitária de saúde e moradora da comunidade desde que nasceu.  

Val, como é conhecida na comunidade, conta que os policiais chegaram em sua casa no fim da tarde do dia 16 procurando por “Maria”. Mesmo comprovando não ser a pessoa procurada, Val teve a sua casa revistada pelos policiais. “Eu perguntei o que estavam procurando, mas elas não respondiam. Não vinha na minha cabeça que estariam procurando droga. Eu estava só com minha filha de cinco anos e meu filho de onze. Mexeram em tudo”.

A trabalhadora foi levada para o 10° BPM - Batalhão de Polícia Militar, em Palmares. Lá, “quando eu fui olhar o mandado, tinha dizendo que na comunidade existia uma quadrilha e que eles [Polícia] estavam procurando drogas. Isso me deu uma revolta muito grande, por eu ser uma moradora nascida e criada, por todos saberem quem eu sou, por eu ter sofrido essa injustiça. Estou muito revoltada com essa situação, principalmente pelo trauma que minha filha de cinco anos está. Hoje, quando vê um carro da polícia, ela corre com medo achando que vão levar alguém”, ressalta. 

O agricultor José Severino Elias da Silva, 45, pai de cinco filhos, também se sente indignado e humilhado. O trabalhador foi abordado pela polícia no Engenho Fervedouro enquanto voltada para a casa depois de um dia pesado na roça. Eram 16h30, também da terça-feira. Severino desceu de sua moto, retirou o capacete e recebeu a notícia de que seria levado preso. Foi algemado. Pergunto o porquê, mas só soube da resposta quando chegou ao 10° Batalhão da PM, em Palmares: tráfico de drogas e de armas. José Severino, conhecido como Branco, ficou detido no batalhão e foi levado ao presídio na manhã do dia 17. Entrou na cela “encolhido” e carregando em suas mãos as botas de agricultor, conforme relata por telefone à CPT. No mesmo dia, o delegado Marcos Sorolla emitiu um documento à Juíza recomendando a revogação da prisão temporária, o que foi acatado algumas horas depois. No meio da tarde, Severino foi liberado. Esse tempo, contudo, para o agricultor, “pareceu durar mais de quinze anos”.

Agora, já em casa, Severino diz: “eu estou muito magoado. Acordo de madrugada e fico pensando nisso. Estou me sentindo muito injustiçado. Fui preso. Ainda reviraram a minha casa e perguntaram para minha filha de 15 anos onde estavam as drogas. Eu fui criado sem pai, ele morreu quando tinha quatro anos. Minha mãe me criou só e me deu muita educação, a mesma coisa faço com meus filhos. Não sou bandido, mas agora onde eu chegar, vão dizer que eu uso droga. É triste. Estou revoltado.”