Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Dom Pedro ofereceu a sua solidariedade a grupos de religiosos e de trabalhadores e trabalhadoras contra as ditaduras militares no América Latina. Foto: Portal Vermelho

Por Solange Engelmann
Da Página do MST

Como praticante da teologia da libertação, o bispo emérito de São Félix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, chamado de “bispo dos povos”, buscou com entusiasmo fazer da sua vida e militância um exemplo de esperança e resistência para os povos oprimidos, especialmente os indígenas, quilombolas e trabalhadores do campo.

No Brasil, o bispo denunciou as atrocidades da ditadura militar, o grande latifúndio e os opressores dos povos do campo. Em toda América Latina ofereceu sua solidariedade a grupos de religiosos e de trabalhadores e trabalhadoras contra as ditaduras militares, financiadas e apoiada pelos Estados Unidos, como na Nicarágua, El Salvador e Argentina.

Casaldáliga extrapola as ações de solidariedade com os indígenas da região de São Félix e expande aos povos na América Latina. O advogado, ex-deputado federal e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Eduardo Greenhalgh, argumenta que Pedro foi um daqueles profetas, “profetas do nosso tempo, da nossa luta”.

Para o psicólogo Paulo Maldos, outro companheiro de luta do religioso, “o principal intuito do dom Pedro era criar, entre todos os povos da América Latina, um espírito de fraternidade e uma rede concreta de solidariedade”, expõe.

Por que o bispo emérito de São Félix fez tudo isso? E quais os ensinamentos ele deixou para a luta dos povos oprimidos latino-americanos? Em uma entrevista carregada de emoção e ensinamentos, Paulo Maldos e Luiz Eduardo Greenhalgh, companheiros de luta do bispo, contam um pouco mais sobre a dimensão internacionalista de militância de dom Pedro. Leia a seguir:

Como você conheceu o bispo Dom Pedro Casaldáliga e a sua militância na defesa dos povos excluídos na América Latina?

Paulo – Conheci Dom Pedro em 1972, quando estudava psicologia, num encontro de diversos bispos com estudantes, no TUCA, Teatro da Universidade Católica de São Paulo. Ele se dedicava a lutar pelos posseiros, povos indígenas, trabalhadores escravizados do Araguaia e depois foi expandindo sua atuação, no Cone Sul da América Latina e com os povos da América Central.

Ele sempre partia de quem mais sofria, das Mães da Praça de Maio, na Argentina, que buscavam seus filhos e filhas desaparecidos, dos povos indígenas na Guatemala até os camponeses da Nicarágua e El Salvador.

Luiz Eduardo – Conheci Dom Pedro entre 1972 e 1973, quando era estudante da Faculdade de Direito Largo São Francisco, militava no movimento estudantil.

Em 1972 e 1973, a ditadura militar abriu um processo contra um padre francês, que trabalhava na prelazia de São Félix [do Araguaia] e denunciou um latifúndio, com grande extensão de terras. O Padre foi processado na auditoria militar de Campo Grande e no escritório Renove passamos a fazer uma campanha de defesa deste padre, com a presença do Pedro. O padre foi condenado, e partir deste episódio nos aproximamos.

Eu tinha militância católica, junto com dom Paulo Evaristo Arns, em São Paulo. Quando comecei a advogar para presos políticos, me relacionei muito com a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] e com os trabalhadores rurais do campo e da CPT [Comissão Pastoral da Terra].

Como foi a militância internacionalista de Dom Pedro Casaldáliga com os povos de outros países?

Luiz Eduardo – Na época a América Central estava se rebelando. Tínhamos a revolução Cubana vitoriosa em 59, mas na Nicarágua um ditador chamado Somoza. A Frente Sandinista trazia uma novidade, que foi a participação decisiva na tomada do poder de uma ala de padres, teólogos, católicos. O Pedro se aproximou desses seus irmãos, com muito entusiasmo.

Também em El Salvador, a frente Farabundo Martí [Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN)], com a participação decisiva dos cristãos, da teologia da libertação, o Pedro se aproximou do Dom Oscar Romero. No Brasil fundamos o Comitê Brasileiro de Solidariedade aos Povos da América Latina, em que tivemos muita dedicação com a revolução nicaraguense e a revolução salvadorenha.

O Pedro também teve muitas relações com as Madres da Praça de Maio, com a Hebe de Bonafini e as pessoas que fundaram as entidades que tiveram o maior destaque no combate à ditadura argentina.

Paulo – Ele visitava diferentes países, estabelecia contato com comunidades e lideranças, ouvia as estórias, as violências sofridas, refletia e depois denunciava em textos, cartas, poemas, entrevistas, tudo que havia escutado e testemunhado.

Divulgava cartas para os amigos, em que relatava as experiências vividas e incentivava a solidariedade com os diversos povos. Celebrava nas comunidades que visitava e fazia de cada celebração um ato de solidariedade e esperança para a superação da situação de injustiça e violência que o povo vivia.

Qual o principal intuito do bispo ao se solidarizar com povos de outros países?

Paulo – Era criar, entre todos os povos da América Latina, um espírito de fraternidade e uma rede de solidariedade. Através do seu exemplo, da sua prática e da sua palavra, buscava criar essa ligação entre os diferentes povos, denunciando situações até então desconhecidas de sofrimento e violência, revelando processos de opressão e também dando motivos de esperança. Ele próprio, com seu compromisso radical, era motivo de esperança.

Luiz Eduardo – Pedro fez isso por causa da teologia da libertação, da ideia de que os povos se auxiliam nesse processo de libertação. A dimensão internacionalista do Pedro foi muito grande, essa mesma dimensão que tinha em São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal muito amigo do Pedro.

Dom Pedro Casaldáliga está no reino de Deus, mas não está sozinho, com ele estão Dom Thomas Balduíno, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Helder Câmara, Madre Cristina e, tantos outros, daquela época que são profetas, profetas do nosso tempo, profetas da nossa luta.

Qual história da militância internacionalista de dom Pedro mais te marcou?

Paulo – Foi a militância pelos povos da América Central, nos anos 80, porque eram povos em guerra civil e sofrendo brutalidades constantes dos governos, e todos estes governos tinham como aliado, financiador e apoio principal os EUA.

Dom Pedro foi, por exemplo, até a região de atuação dos “contra”, na Nicarágua, na fronteira com Honduras, onde as milícias financiadas e armadas pelos EUA cometiam crimes bárbaros. Ele esteve lá e podia ter sido uma vítima desses ataques.

Ele teve muita presença também em El Salvador e Guatemala. Nas suas entrevistas, textos e poemas, ele destacava a situação de guerra e violência contra os povos desses países, particularmente contra os pobres, camponeses e comunidades indígenas, e assim fortalecia a solidariedade.

Luiz Eduardo – Houve uma época em que o padre Miguel D’Escoto da Nicarágua fez greve de fome e o Pedro saiu do Brasil e foi prestar solidariedade.

*Editado por Wesley Lima