Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Em 2025, os conflitos no campo no Rio Grande do Norte atingiram 5.473 pessoas, entre trabalhadores/as rurais sem terra, comunidades quilombolas, pequenos/as proprietários/as, comunidades tradicionais e outros grupos sociais no campo. Segundo levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), publicado na 40ª edição do relatório Conflitos no Campo Brasil, foram registradas 17 ocorrências de conflitos no estado ao longo do ano.

Setor de comunicação da CPT Nordeste 2


De acordo com a metodologia do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc-CPT), os conflitos no campo são classificados em três categorias: conflitos por terra, conflitos pela água e conflitos trabalhistas, incluindo, nesta última, os casos de trabalho análogo à escravidão. No Rio Grande do Norte, os conflitos por terra concentraram a maior parte das ocorrências registradas em 2025. Dos 17 registros, 14 corresponderam a essa categoria, envolvendo 1.327 famílias.

Os demais registros incluíram um caso de trabalho análogo à escravidão, que resultou no resgate de um trabalhador em uma propriedade dedicada à criação de suínos, em Mossoró, e dois conflitos pela água. Um deles foi registrado na comunidade Salgadinho, em Caicó, e o outro em uma comunidade costeira tradicional de Natal.

Geografia dos conflitos no campo - Os dados mostram uma maior concentração dos registros de conflitos nas mesorregiões Central e Oeste do Rio Grande do Norte, que, juntas, representam 75% dos municípios com ocorrências de conflitos em 2025, sendo a Mesorregião Central Potiguar responsável por 50% dos registros e o Oeste Potiguar pelos outros 25%. Já o Agreste Potiguar reúne 16,7% dos municípios com ocorrências, e o Leste Potiguar, 8,3%.

Entre os casos mais emblemáticos ocorridos no ano, destacam-se três ocupações realizadas por famílias sem-terra nos municípios de Açu, Mossoró e Pedro Avelino; os conflitos que afetaram as comunidades quilombolas de Macambira e Gameleira, que reivindicam o reconhecimento e a proteção de seus territórios; e os conflitos envolvendo famílias camponesas nos municípios de Serra do Mel e Mossoró, relacionados à expansão de empreendimentos eólicos.

Tipos de violência no campo - Em 2025, 250 famílias permaneceram sob ameaça de despejo, e outras 150 sofreram tentativa ou ameaça de expulsão de suas terras e territórios. Embora o estado não tenha registrado assassinatos, tentativas de homicídio ou agressões físicas graves em conflitos agrários ao longo do ano, a permanência das ameaças de despejo e expulsão demonstra que os mecanismos de pressão sobre as comunidades continuam presentes. 

Para Antônio Nilton, agente pastoral da CPT no Oeste do estado, "vemos esse contexto com muita preocupação, porque se repete todos os anos. O avanço da reforma agrária ainda é pouco e não consegue responder ao desafio que é a violência no campo”. Para o agente pastoral, os dados dos conflitos no campo são reflexo, a um só tempo, da ausência de Reforma Agrária e do avanço de grandes empreendimentos sobre comunidades tradicionais e sobre suas terras e territórios. “É a perversidade da lógica do capital imposta aos povos do campo em todo o país. E o Rio Grande do Norte compartilha dessa realidade, apresentando um número elevado de pessoas envolvidas em conflitos agrários, com mais de cinco mil pessoas vivendo nesse contexto”, destaca.

Ainda segundo Nilton, “No Rio Grande do Norte, observamos uma acentuada expansão dos empreendimentos capitalistas no campo. Um exemplo pode ser visto no Oeste do Estado, onde é evidente o avanço da fruticultura, atividade que, ao longo do tempo, tem ocupado territórios e provocado a remoção forçada de diversas comunidades e famílias camponesas. Esse processo ocorre através da aquisição ou arrendamento de terras, bem como pela inviabilização da permanência das famílias, por conta do uso intensivo de agrotóxicos e da escassez hídrica gerada por essas grandes empresas. Além disso, tem também o avanço da instalação dos empreendimentos de energia renovável, como parques eólicos e solares, que ameaçam de forma crescente e violenta diversas comunidades camponesas no estado. Em contrapartida, a Reforma Agrária e a desapropriação não andam. Tudo isso preocupa muito as comunidades, os movimentos sociais e a CPT”, destaca.

Conflitos no Campo Brasil - Esta é a 40ª edição da publicação Conflitos no Campo Brasil, elaborada pela Comissão Pastoral da Terra, por meio do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc-CPT). Publicada anualmente desde 1985, a obra constitui uma das principais referências nacionais sobre a realidade dos povos do campo, das águas e das florestas, reunindo dados sobre conflitos por terra, conflitos pela água, conflitos trabalhistas, trabalho escravo e diferentes formas de violência contra a ocupação, a posse e a vida.

 

 

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