Comunidade Padre Tiago, em Moreno - PE, realizou colheita inédita no estado e reforça a defesa da Reforma Agrária, da agroecologia e da mecanização voltada à agricultura camponesa
A Comunidade Padre Tiago, localizada no Engenho Una, no município de Moreno (PE), realizou nesta terça-feira, 8, a primeira colheita mecanizada de arroz agroecológico em Pernambuco. O marco representa um avanço da produção camponesa no estado e reúne, em uma mesma experiência, agroecologia, mecanização apropriada para a agricultura camponesa e uma trajetória centenária de permanência na terra em um área que ainda aguarda a efetivação da Reforma Agrária.
Setor de comunicação da CPT Nordeste 2
O momento da colheita reuniu, além dos/as moradores/as da comunidade Padre Tiago, representantes de mais de dez comunidades acompanhadas pela CPT na Zona da Mata de Pernambuco, que foram ao local para celebrar o avanço da produção camponesa e ver de perto uma experiência que poderá ser replicada em suas comunidades.
Plácido Júnior, agente pastoral da CPT, destaca a importância da colheita do arroz. "Estamos numa comunidade posseira que decidiu substituir o monocultivo da cana-de-açúcar pela produção agroecológica de alimentos e que luta pelo direito de permanecer na terra produzindo alimentos. Então, essa colheita é fundamental para demonstrar que a Reforma Agrária é o único caminho para produzir alimentos saudáveis para o campo e para a cidade. Além disso, outro aspecto fundamental é a mecanização apropriada para a agricultura camponesa. Um trabalho que antes levaria um dia inteiro pode ser realizado em poucos minutos ou horas. Isso reduz o trabalho penoso no campo. Acreditamos que a mecanização adequada à agricultura camponesa e aos sistemas agroflorestais é o caminho para garantir a permanência das pessoas na terra e fortalecer a produção de alimentos saudáveis."
A jovem agricultora Rose, moradora da comunidade, resume o sentimento coletivo diante do momento. "É uma honra viver esse dia. Nossa comunidade está dando o pontapé inicial na colheita mecanizada de arroz agroecológico em Pernambuco", destaca. Para Maurício da Silva, presidente da associação comunitária, o cultivo do arroz representa mais uma demonstração da luta das famílias por mesa farta e prato cheio. "Essa é uma conquista muito importante para uma comunidade que ainda não é assentamento. É uma vitória de todos nós", enfatizou.
Entre os participantes da Colheita do arroz agroecológico estava também Edijane Rodrigues, agricultora da Comunidade São Bento, situada no município de Itambé. A comunidade deverá iniciar em breve sua própria experiência de produção mecanizada de arroz. A agricultora destacou a importância de acompanhar de perto a colheita e a utilização do maquinário, considerado por ela como fundamental para ampliar a produção camponesa e reduzir o trabalho penoso no campo. "Os maquinários adaptados são muito importantes para a vida do trabalhador rural. Facilitam o trabalho das famílias e, principalmente, das mulheres. Sem esses equipamentos, o trabalho é muito pesado. É importante que essa mecanização chegue a outras comunidades do campo", destaca
Agroecologia e produção do arroz para reforçar a luta pela Reforma Agrária - O cultivo do arroz na comunidade começou há cerca de um ano, em caráter experimental, integrado a sistemas agroflorestais desenvolvidos pelas famílias. Foi no início de 2026 que a produção do arroz agroecológico ganhou novo impulso após a inclusão de famílias da comunidade no Programa Arroz da Gente, iniciativa do Governo Federal coordenada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que incentiva a produção de arroz pela agricultura camponesa, com fornecimento de sementes, assistência técnica e equipamentos apropriados à pequena produção.
O plantio foi realizado de forma coletiva ainda no mês de março, por meio de mutirões durante um curso sobre Sistema Agroflorestal Comunitário organizado pela Escola da Terra, iniciativa desenvolvida pela equipe da CPT na Zona da Mata Norte do estado. A Escola, criada em 2024, realiza processos formativos que conectam a agroecologia, agrofloresta, luta pela terra e leitura crítica da realidade como estratégia para fortalecer a autonomia das comunidades camponesas, a Reforma Agrária, a soberania alimentar e o cuidado com a Casa Comum.
Comunidade Padre Tiago - A Comunidade Padre Tiago é formada por aproximadamente 50 famílias posseiras que vivem na localidade há diversas gerações. Desde 2011, quando passaram a enfrentar ameaças de despejo e expulsão por parte da antiga e desativada Usina Bilhões, os agricultores e agricultoras reivindicam do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a desapropriação da imóvel para fins de Reforma Agrária. Atualmente, a área encontra-se em processo inicial de aquisição pela autarquia, mas, enquanto todos os procedimentos não forem concluídos, as famílias ainda convivem com o temor e o risco de serem despejadas.
Desde que fortaleceram sua organização coletiva em defesa da permanência na terra e da produção de alimentos saudáveis, as famílias da Comunidade Padre Tiago vêm escrevendo um novo capítulo na história da região, marcada pelos impactos da monocultura da cana-de-açúcar e pelo predomínio secular das usinas sucroalcooleiras. Com o avanço da agroecologia e dos sistemas agroflorestais, a comunidade consolidou-se como referência regional e vem recebendo regularmente agricultores de outras comunidades, pesquisadores e estudantes de instituições de ensino técnico e superior interessados em conhecer as experiências desenvolvidas pelas famílias.
