Manifestação levou às ruas pautas como o combate ao feminicídio, a luta por terra e moradia, o fim da escala 6×1 e a defesa da soberania e dos serviços públicos
Sob o sol forte da manhã desta segunda-feira (7), o 32º Grito das Excluídas e Excluídos ocupou a Avenida da Paz, em Maceió, levando para o 7 de Setembro reivindicações em defesa da vida, da terra, da moradia, da paz e da soberania nacional. Após uma celebração na Praça Sinimbu, no Centro, a mobilização seguiu em passeata pela avenida, logo depois da passagem do desfile cívico do Dia da Independência, até o bairro de Jaraguá.
Com a bandeira permanente “Vida em Primeiro Lugar!” e o lema “Na defesa da terra, da paz e da moradia, erguemos a voz: mulheres vivas e soberania!”, a edição deste ano reuniu integrantes de pastorais sociais e organismos da Igreja, movimentos populares e sociais, sindicatos, estudantes e ativistas de diferentes causas.
A programação começou com os participantes formando um grande círculo para a celebração que antecedeu a caminhada. O momento contou com oração, memória e partilha.
Fátima Rosário, integrante da Cáritas Maceió, das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da organização do Grito, explicou que a celebração reuniu diferentes setores comprometidos com as lutas populares. Durante o momento inicial, foram lembrados mártires que fizeram parte da caminhada pela terra, pela moradia e pela paz.
A programação também incluiu a reflexão da Palavra de Deus, cantos, o Pai Nosso dos Mártires e a partilha de alimentos produzidos no campo, como macaxeira e coco. Ao final da celebração, uma ciranda reuniu os participantes de mãos dadas.
Para Fátima, a presença da Igreja nas ruas ao lado das organizações populares expressa um compromisso com os empobrecidos.
“O Grito dos Excluídos e Excluídas é uma forma da nossa Igreja mostrar a sua missão profética nas ruas, junto com os movimentos sindicais e sociais. Não podemos nos calar diante de tantas injustiças, principalmente a iolência contra as mulheres”, afirmou.

O padre Marivaldo também destacou a importância da mobilização coletiva e da defesa da vida. “É bom estar aqui no Grito dos Excluídos, com o tema ‘Vida em primeiro lugar, na defesa da terra, da paz e da moradia’. Tomei parte da celebração, com muita honra, e participei da caminhada do Grito”, afirmou.
Caminhada na Avenida da Paz
Com o encerramento da passagem do desfile cívico, o Grito deixou a Praça Sinimbu e ocupou a Avenida da Paz, seguindo em direção a Jaraguá.
O percurso marcou também uma mudança de vozes na avenida: após as comemorações oficiais da Independência, movimentos sociais, pastorais, sindicatos e organizações populares ocuparam o espaço para questionar o significado da soberania em um país onde parte da população ainda enfrenta a ausência de direitos básicos.
Débora Nunes, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) em Alagoas, relacionou o debate sobre a Independência à necessidade de garantia de direitos.
“A democracia precisa, sobretudo, garantir soberania e a soberania exige direitos garantidos”, afirmou.
Segundo a dirigente, a permanência de trabalhadores sem moradia, de pessoas vivendo nas ruas e de famílias sem acesso à terra evidencia as contradições de uma independência que ainda não se traduz em direitos para toda a população.
“Nós trazemos o grito de milhares, o grito de milhões que querem o fim da escala 6×1, trazemos o grito daqueles e daquelas que querem a reforma agrária como forma de garantir justiça num estado marcado pela concentração da terra e da riqueza”, disse Débora.
A dirigente também destacou a violência contra as mulheres e a defesa das políticas públicas entre as reivindicações levadas às ruas. “Trazemos o grito daqueles e daquelas, mas sobretudo das mulheres que são violentadas, que são vítimas de feminicídio”, afirmou, acrescentando que a mobilização também reivindica o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e da educação pública.
A presidenta do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal), Consuelo Correia, reforçou a centralidade da luta das mulheres na edição deste ano.
“É pela vida das mulheres, é pela nossa existência, que precisamos também estar aqui. O número de feminicídios em nosso país é alarmante”, afirmou.
Para Consuelo, o Grito também é um espaço de diálogo com a sociedade sobre questões que afetam diretamente as condições de vida da população. Entre elas estão a soberania nacional, a saúde, a educação e o fim da escala de trabalho 6×1.
“É isso que nós queremos, que o nosso povo tenha direito a viver. E por isso, companheiros e companheiras, nesse dia de luta, nós temos que dialogar, nós temos que debater com a sociedade”, defendeu.
Dos Flexais, um grito por moradia e realocação
Entre as reivindicações que ganharam espaço durante a caminhada esteve a situação vivida por moradores dos Flexais, em Maceió. A comunidade está inserida na região afetada pelas consequências do afundamento do solo provocado pela mineração de sal-gema da Braskem, desastre que levou à desocupação de bairros e alterou profundamente a vida de milhares de moradores da capital alagoana. Lá aconteceu a 36ª Romaria da Terra e das Águas, em 5 de outubro do ano passado, com o tema Ecologia Integral: esperança, resistência e profecia” e o lema: “E Deus viu que tudo era muito bom (Gn 1,31)… A Braskem afundou sonhos”.
Antônio Domingo dos Santos, conhecido como Sassá, morador dos Flexais e integrante do grupo SOS Realocação, participou do Grito para cobrar uma solução para as famílias que permanecem na região. Segundo ele, os moradores enfrentam isolamento e aguardam medidas que garantam a realocação da comunidade.
“A justiça, infelizmente, dorme de braço cruzado, sentada em cima do processo e da realocação daquela comunidade, que estamos morrendo à míngua”, denunciou.
Sassá afirmou ainda que muitos moradores estão desanimados diante da demora por uma solução, mas ressaltou que decidiu levar a reivindicação da comunidade às ruas. Sua participação aproximou uma das principais bandeiras nacionais do Grito, o direito à moradia digna, de uma realidade concreta vivenciada por famílias de Maceió.
Um grito que reúne diferentes lutas
Além da luta contra o feminicídio e pela moradia, o 32º Grito das Excluídas e Excluídos reuniu reivindicações pela reforma agrária, pelo fim da escala 6×1, pela defesa do SUS e da educação pública, gratuita e de qualidade. A soberania nacional e a oposição à interferência estrangeira nos assuntos do Brasil e dos demais países latino-americanos também estiveram entre as pautas da mobilização.
Durante a caminhada, representantes de movimentos sociais, organizações populares e sindicatos levantaram suas bandeiras de luta. A mobilização foi encerrada nas proximidades da Capela de Jaraguá.
Realizado tradicionalmente no dia 7 de Setembro, o Grito das Excluídas e Excluídos mantém como bandeira permanente “Vida em Primeiro Lugar!” e utiliza a data da Independência para levar ao espaço público reivindicações dos grupos sociais historicamente excluídos. A mobilização nacional surgiu em 1995, a partir das discussões da 2ª Semana Social Brasileira, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e tornou-se uma construção coletiva de pastorais sociais, organismos da Igreja, movimentos populares e organizações sindicais.

