Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Com o fim da Ditadura Militar no Brasil, a situação de desemprego, fome, êxodo e miséria se agravaram. Para enfrentá-la, os trabalhadores sem-terra de todo o país se organizaram e ocuparam terras para exigir a reforma agrária. Em Pernambuco, a primeira ocupação de terra ocorreu no dia 08 de fevereiro de 1986, um sábado de Carnaval, quando 158 famílias ocuparam o Engenho Pitanga 1, pertencente à família Lundgren, localizado entre os municípios de Abreu e Lima e Igarassu, na Região Metropolitana de Recife/PE. A ocupação teve o apoio do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Igarassu e de Abreu e Lima, da Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do estado de Pernambuco (FETAPE) e da Pastoral Rural que posteriormente se filiou à Comissão Pastoral da Terra (CPT). Em 05 de março de 1986, por ordem judicial expedida por um juiz em Igarassu, as famílias foram obrigadas a deixar o local. O despejo foi executado por mais de 200 policiais que destruíram todo o acampamento. Um pequeno proprietário da região, distante cerca de cinco quilômetros da área, acolheu as 158 famílias sem-terra. Em 29 de abril daquele mesmo ano, as famílias de Pitanga ocuparam a sede do Incra reivindicando a desapropriação do imóvel. Depois de uma semana de espera, eles deixaram a sede do órgão com a promessa de que o processo de desapropriação seguiria para Brasília. No dia 18 de agosto, os sem-terra de Pitanga e de outras comunidades em situação de conflito por terra fizeram uma passeata pelas principais ruas do centro do Recife reivindicando a reforma agrária. A marcha terminou na Praça da República em frente ao Palácio Campo das Princesas, residência oficial do governo de Pernambuco. Um acampamento foi montado pelos participantes da marcha com o objetivo de pressionar o governo e compartilhar com a população a luta pela terra e a necessidade de uma reforma agrária. Em 02 de outubro, uma comissão do acampamento da Praça da República, além de membros da FETAPE, Sindicatos Rurais e da Pastoral Rural, foram à Brasília reivindicar a desapropriação de todas as áreas de conflitos no estado de Pernambuco. Em 09 de outubro, o então presidente da República, José Sarney, assinou a desapropriação de Pitanga e de outros imóveis alvos de conflitos, porém, algumas terras não foram desapropriadas por conveniência política. Famílias de Pitanga permaneceram no acampamento da Praça da República e afirmaram que só sairiam dali quando houvesse a imissão de posse. Em 25 de novembro, o juiz da 3ª Vara de Justiça no Recife deu imissão de posse ao Incra. Os acampados de Pitanga fizeram uma celebração de despedida da Praça da República e agradeceram o apoio da população. Em 29 de novembro, fecharam o acampamento na praça e partiram de volta para Pitanga. No dia seguinte, 30 de novembro, houve missa e festa para celebrar a resistência e a chegada na terra prometida. A luta e a vitória em Pitanga 1 serviu de exemplo para famílias sem-terra de várias regiões de Pernambuco. No ano seguinte, em agosto de 1987, cerca de 500 famílias ocuparam outros engenhos da família Lundgren próximos aos assentamentos de Pitanga 1. A nova ocupação passou a ser conhecida como Pitanga 2. Durante o período da ocupação, 19 crianças morreram por desnutrição e o trabalhador João Manoel da Silva foi assassinado em 1º de março de 1988. A imissão de posse dessa nova área só veio a acontecer em 25 de novembro de 1989 depois de despejos, ocupação no Incra e reivindicação em Brasília.