Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

No despertar da manhã do último domingo, dia 04 de novembro, diversos camponeses e camponesas se concentraram em frente à Escola de Catolé, na estrada de Tupaóca, no município de Aliança, para participar da Romaria da Terra e dos Mártires. Os romeiros e romeiras percorreram cerca de 10 quilômetros. Saíram da concentração e seguiram pela rodovia PE 62, com destino ao assentamento Cazuza, no município de Condado, passando pelo assentamento Luíza Ferreira, no Engenho Bonito.

 A data da Romaria foi escolhida para homenagear o trabalhador rural, canavieiro, Luís Carlos da Silva, assassinato há exatamente 20 anos, no dia 04 de Novembro de 1998, durante uma manifestação grevista pacífica, no município de Goiana, zona da mata de Pernambuco.  O trabalhador foi assassinado com um tiro na nuca por seguranças da CAIG - Cia Agroindustrial de Goiana  (Usina Santa Teresa) e pela Polícia Militar. Na ocasião, outros 13 trabalhadores rurais canavieiros foram alvejados, sobretudo pelas costas.

 Organizada pela CPT em Pernambuco e pelo conjunto de comunidades camponesas da região por ela acompanhadas, a Romaria teve como objetivo fazer a memória de camponeses e camponesas assassinados/as por lutarem por terra e direitos na zona da mata de Pernambuco, além de animar as comunidades camponesas a seguirem no caminho da Reforma Agrária. Com a Romaria da Terra “celebramos os mártires da terra e adquirimos força e energia pra seguirmos com fé, caminhando”, ressaltou o sindicalista Adilson, presidente do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Igarassu.

 Durante a Romaria, três momentos de reflexão conjunta foram realizados. O primeiro ocorreu ainda na concentração, enquanto todos se animavam e se preparavam para iniciar a caminhada. O segundo momento correu na metade do percurso, quando os/as participantes refletiram sobre os impactos do monocultivo da cana-de-açúcar e partilharam suas experiências de resistência e de produção agroecológica.

 A terceira parada ocorreu no assentamento Luíza Ferreira e teve como tema “As mulheres na luta e no Brasil que queremos”. Na ocasião, os romeiros e romeiras se uniram aos/às trabalhadores rurais do assentamento para fazer uma homenagem à camponesa Luíza Ferreira, assassinada pelo seu ex-marido em 2010.  Sua filha, Jordânia Ferreira, relembrou a história de luta da mãe e afirmou, emocionada, que: “falar dela não é fácil, principalmente pra mim que sei a dor e a falta que ela me faz. Minha mãe é um exemplo de mulher guerreira, de força e determinação. Não baixava a cabeça para dificuldade nenhuma e não pensava só em si, mas em todos aqueles que estavam ao seu redor dela. Continuem a luta e o sonho dela”, finalizou.

 No ponto de chegada da Romaria, o assentamento Cazuza, todos participaram da celebração de encerramento conduzida pelo Padre Tiago Thorlby, agente pastoral da CPT em Pernambuco. Apesar do cansaço físico grande, os romeiros e romeiras puderam expressar muita fé e esperança nesse momento que relembrou diversos mártires da terra da região. Para Luis Afonso, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na zona da mata, foi um “momento de celebrar grandes companheiros e companheiras que se foram em nome da causa da Reforma Agrária. Nós estamos aqui para dar continuidade a esta luta, que não é fácil. Teremos que ter união e determinação para fortalecer nossa caminhada”.

 Maciel da Silva - irmão de Inácio José e cunhado de Pedro Augusto, assassinados em 1997, no massacre de Camarazal - ressaltou que os/as mártires da terra são pessoas que, como eles, enfrentaram a injustiça e lutaram por direitos. “São pessoas que decidiram fazer parte da história e ninguém apagará mais isso”, destacou.

 Diversos camponeses e camponesas presentes seguiram dando depoimentos sobre sua fé, religiosidade e a esperança de um mundo livre de injustiça, fazendo memória dos que tombaram na luta pela Reforma Agrária.  A celebração seguiu até às 10h30 e foi encerrada com uma partilha de alimentos para os romeiras e romeiras.