Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Diante da repercussão nacional dos ultimos acontecimentos de conflitos no campo no país, as organizações do campo em Pernambuco deveriam se reunir hoje (08.06) com a Secretaria de Justiça e Direitos humanos para tratar dos casos de ameaças de morte e de conflitos no campo no Estado. A reunião, que não aconteceu, reforça o questionamento e o repudio da CPT sobre  a forma superficial  que o Estado tem tido com relação ao direito à vida dos povos do campo. Leia a nota a seguir:

 
No dia 03 de junho do ano em curso, a CPT PE recebeu um convite para participar de uma reunião no “dia 08 de junho de 2011, às 09:30 horas, na sede da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, situada à Rua Benfica, 133, Madalena, Recife, a cerca da situação dos defensores de direitos humanos ameaçados no Estado de Pernambuco, conjuntamente com as principais lideranças dos movimentos sociais, bem como indígenas e quilombolas”, conforme ofício de nº 52/11 da referida Secretaria.
 

 

Hoje, dia 8, ao chegar à Secretaria, os representantes da CPT foram informados que a reunião teria acontecido no dia anterior com a participação de duas pessoas apenas. Disseram que ocorrera um erro na data e que não iria haver a reunião. Erro? Incompetência? Conivência? Não querem atuar nas causas? A CPT questiona e repudia esta maneira superficial de tratar as questões ligadas à vida e aos direitos humanos dos camponeses e camponesas.
 
 
 
 
A Pastoral enviou, via correio eletrônico, a lista de seus registros de ameaçados de morte em Pernambuco nos últimos dez anos e sugeriu que a Secretaria ouvisse as organizações do campo para atualizar a lista e que estes indicassem os principais conflitos no campo em Pernambuco. Pois, as ameaças de morte contra lideranças, indígenas, quilombolas, trabalhadores e trabalhadoras rurais estão relacionadas a algum tipo de conflito no campo, seja na luta pela terra, seja pela defesa dos territórios, seja pela defesa dos direitos trabalhistas. Pernambuco é um dos estados do Brasil com maior número de conflitos no campo e com um alto índice de ocorrências de ameaças de mortes.
 
 
 
Um pouco de história - Jesus foi condenado à morte pelo conselho de Estado de Israel, o conselho de anciões, que era composto por grandes proprietários de terras e grandes comerciantes. No entanto, cabia a Pôncio Pilatos a palavra final, uma vez que ele era o Governador e representante de Roma. Para garantir a Paz Romana era mais viável, para eles, eliminar um pessoa que conter uma revolta. Em frente a uma multidão influenciada pelo conselho de anciões, que pedira a morte de Jesus, Pilatos pediu para que lhe trouxessem águas e simbolicamente lavou as mãos dizendo: “Eu não sou responsável pelo sangue desse homem. É um problema de vocês” (Evangelho de Mateus, cap. 27., vers. 24). Em seguida, Jesus foi crucificado.
 
 
 
Quantas vezes mais o Estado brasileiro e o de Pernambuco vão “lavar as mãos”, não autuando nas causas das ameaças de morte e permitindo que tantos camponeses, camponesas, quilombolas, indígenas, sem terras, lideranças, religiosas e religiosos sejam crucificados pelo latifúndio e pelo agrohidronegócio?
Todos sabemos que quem desapropria terras e demarca territórios quilombolas e indígenas são órgãos do Governo Federal, no entanto, esses conflitos acontecem aqui, no território pernambucano. No mínimo se exige uma atuação conjunta dos governos e dos órgãos responsáveis no combate à violência no campo, bem como a garantia dos direitos humanos. Direito à terra, território, alimentação adequada, moradia, saúde, educação, direitos dos quais o Brasil é signatário em tantas convenções internacionais.
Seu Expedito, do quilombo Timbó, localizado no município de Garanhuns, e que fora ameaçado de morte há cinco anos atrás, diz que: “a melhor forma de garantir a minha vida, é a garantia do nosso território”.
 
 
 
 
 
 
Recife - PE, 08 de junho de 2011
Comissão Pastoral da Terra