Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

A Comissão Pastoral da Terra participou, no último dia 03 de abril, da aula aberta da disciplina Tecnologia do Desenvolvimento, vinculada ao Programa de Pós Graduação e Desenvolvimento Regional (PPGDR), da Universidade Estadual da Paraíba. Na ocasião, foram discutidas as experiências de produção de energia descentralizada e os impactos provocados por modelos concentrados, como o dos parques eólicos que avançam no estado. Durante o debate, a CPT apresentou aos/às estudantes a Campanha “Não assine sem conhecer”, que tem como objetivo dialogar com a população atingida pelos parques eólicos e contribuir para esclarecer os impactos desse modelo energético.

Estiveram presentes na aula aberta alunos e alunas do mestrado em Desenvolvimento Regional, representante do Setor de Pastoral Social da Diocese, o coordenador do PPGDR, professor Cidoval Moraes de Sousa. Na mesa, contribuindo com os debates, estiveram o professor Walmeran Trindade, coordenador do curso de eletrotécnica do IFPB, e o professor Luciano Albino, que ministra a disciplina no PPGDR. 

O professor Walmeran Trindade, no início do debate, relembrou que o uso intensivo de energias fosseis vem ampliando o efeito estufa e aumentando o aquecimento global. Walmeran ressaltou que o modelo econômico define o modelo de produção e que, por este motivo, fala-se pouco em energia descentralizada e opta-se por um modelo predador, que não respeita a capacidade de resiliência da Terra.

Nos últimos anos, o Nordeste tem sido considerado a “bola da vez”, por seu potencial energético eólico e solar. Porém, o modelo que vem sendo implantado, além de danos ambientais, também tem causado danos sociais porque não respeita os espaços de vida camponesa. Áreas de produção de alimentos e de vida estão sendo “arrendados” em contratos abusivos para implantação dos aerogeradores, enquanto outras áreas estão sendo totalmente desmatadas, com poda química, na Mata Atlântica e na Caatinga, cujas vegetações nativas remanescentes são de somente 3% e 30%, respectivamente.

Durante o debate, os/as participantes discutiram sobre a produção de energia fotovoltaica descentralizada, que tem o intuito de atenuar o aquecimento global potencializado pelo uso de fontes fósseis. Foi observado que as experiências de energia descentralizadas se conectam com a dinâmica e a vida das comunidades camponesas, já que podem ser instaladas em pequenos espaços e até mesmo nos telhados, de modo individual, compartilhado ou coletivo.

Campanha "Não assine sem conhecer" - A Comissão Pastoral da Terra apresentou aos/às participantes a campanha "Não assine sem conhecer", promovida por diversas organizações sociais que atuam no estado e cujo objetivo principal é difundir os reais impactos provocados pelos parques de energia eólica, além de fortalecer as experiências de geração descentralizada de energia.  Com a apresentação da campanha, observamos que muitos estudantes não conheciam os danos à saúde causados pelos parques eólicos e que este assunto é pouco estudado. Fala-se mais dos impactos ao meio ambiente, que se resume a mecanismos de compensação que nem sempre atendem à comunidade impactada.”, destaca Vanúbia Martins, agente pastoral e coordenadora regional da CPT Nordeste 2. Órgãos do Estado responsáveis pela fiscalização e liberação dos empreendimentos não têm respeitado as APPs ou APAs, como é o caso da Serra do Paulo, que é área de proteção da onça Jaguatirica e ainda está localizada em território quilombola. “A pressa em trazer o des-envolvimento ao Estado não dá tempo para estudos mais detalhados, como foi o caso do Parque Canoas, no município de São José do Sabugi, que só depois da implantação e, a partir de denúncias realizadas, estão convocando estudantes e arqueólogos/as para estudar a região e saber que povo viveu ali, quem deixou as cerâmicas e fez as inscrições encontradas e o que foi soterrado pelas obras realizadas. Isso demonstra o total descaso pelo povo e por suas histórias e culturas”, destaca Vanúbia. O debate foi encerrado com a afirmação coletiva: “a tecnologia por si não resolve os problemas da humanidade, há que se humanizar as tecnologias”.

 

 

Fonte: Equipe CPT Campina Grande

Editado por Setor de comunicação da CPT NE2