Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Na Paraíba existem cerca de cinquenta (50) feiras agroecológicas organizadas por assentados da reforma agrária e pequenos agricultores. - Créditos: Thaís Peregrino
Na Paraíba existem cerca de cinquenta (50) feiras agroecológicas organizadas por assentados da reforma agrária e pequenos agricultores. / Thaís Peregrino

Antes de ser assentada da reforma agrária, Dona Cida era vendedora ambulante e seu esposo cortador de cana. A conquista da terra mudou radicalmente a vida de sua família. Junto com o marido e o filho, produz hortaliças, legumes e frutas livres de agrotóxicos e, há cerca de dez anos, comercializa a produção na feira agroecológica mais antiga da capital, a Feira da Ecovárzea, instalada todas as sextas-feiras na Universidade Federal da Paraíba. 

“Nas sextas-feiras meu dia começa uma hora da manhã. Começo logo organizando as verduras nas caixas, porque a gente já deixa tudo arrumadinho um dia antes, mas a gente tem que remover de casa para estrada, aí arrumo, e duas horas ‘em pontinho’ o carro chega. Chegamos aqui na feira quatro e quarenta da manhã”, relatou D. Cida.

                                                                                                                                                Dona Cida e seus produtos na Feira da Ecovárzea.

Ainda está escuro quando a feira começa a ser montada na UFPB, e já tem fregueses à espera. “Chego cedo porque os produtos são limitados por serem agroecológicos. Para conseguir comprar tudo, venho logo cedinho”, conta-nos a chefe de cozinha Mariana Gomes.

Uma história que deu certo

Na Paraíba, já são mais de 50 feiras agroecológicas onde se comercializam alimentos e até algumas criações como galinha e bode, todos na forma de agricultura sustentável, socioambiental e saudável para quem consome e quem produz. “A boa qualidade dos produtos satisfaz muito os clientes. Também, depois que passei a produzir orgânico, é cem por cento de saúde na minha casa”, enfatizou Dona Cida. 

Muitos agricultores da reforma agrária, assim como Dona Cida e Seu Zizo, têm provado que é possível garantir renda e saúde através das experiências de produção sem veneno. “Nessa feira eu consigo muito mais que um salário mínimo. Aqui não vendo apenas produtos, vendo saúde para minha família e para os fregueses’’, garante seu Zizo, agricultor no Assentamento Padre Gino e feirante na feira da UFPB.

Essa experiência de produção e comercialização só foi possível porque a Comissão Pastoral da Terra (CPT) desde 1997 desenvolveu estratégias para enfrentar os problemas de comercialização dos produtos da agricultura familiar de áreas de assentamento. Inicialmente, foi junto aos agricultores da região de Sapé; depois, entendeu-se para outras regiões do estado. Segundo Luiz Damásio, mais conhecido como Luizinho, do assentamento Padre Gino e coordenador da CPT, o principal problema que identificavam era a dependência de atravessadores na hora da venda. “A gente produzia e não tinha onde vender; vendia para os atravessadores, e eles levavam 50%. Aí a gente se organizou e decidimos montar um espaço onde a gente pudesse comercializar os nossos produtos”, relatou Luizinho. E complementou dizendo: “depois de seis feiras, nós paramos e descobrimos que nosso maior problema não era a comercialização, mas sim a produção. A nossa produção não tinha diversificação; nós só tínhamos três, quatro produtos. Uma feira não sobrevive assim. Ela precisa de uma diversificação para que os consumidores venham e realizem seu desejo de compra”.



Seu Zizo é assentado da reforma agrária e participa da Feira da Ecovárzea em João Pessoa desde o seu início.



Foi então que, em 2001, a CPT organizou a primeira Feira Agroecológica de Assentados da Reforma Agrária em João Pessoa. Instalada inicialmente em uma praça no bairro de Mangabeira, transferiu-se para a UFPB no ano seguinte, com apoio de alguns professores e funcionários. Em 2004, os feirantes/produtores criaram a Associação dos Agricultores e Agricultoras Agroecológicos da Várzea Paraibana (Ecovárzea).

Valéria Vieira é funcionária da UFPB e cliente antiga da feira: “Faço essa opção porque a feira é muito boa. Veja só, o coentro do supermercado, em três, quatro dias, 'tá' podre. O daqui passa 15 dias verdinho do mesmo jeito. O que se compra aqui é assim; tem muita diferença o produto com veneno e o sem veneno”.

A feira agroecológica mais antiga de João Pessoa conta com freguesia certa todas as sextas-feiras de manhã na UFPB.

As feiras se multiplicaram

A partir da experiência dos agricultores da Ecovárzea, outras áreas de assentamento se organizaram e montaram suas Associações e Cooperativas, criando novas feiras em João Pessoa, como a Feira da Ecosul, que funciona todos os sábados de manhã no bairro do Bessa. Só na capital, existem ao menos seis feiras orgânicas atualmente. 

O pódio é nosso, e os riscos também

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Cerca de 20% de todo agrotóxico comercializado mundialmente está sendo pulverizado em nossos alimentos, solos e águas.

Paulo Adissi, professor aposentado da UFPB e pesquisador sobre o uso de agrotóxicos na agricultura, fala dos riscos: “Boa parte dos agrotóxicos foram desenvolvidos para matar gente, depois adaptados para matar insetos. Isso faz com que os riscos dos agrotóxicos estejam sempre presentes nos seus usos, afetando trabalhadores, meio ambiente e consumidores”. Ele comenta ainda que, no Brasil, as pesquisas, fiscalizações e monitoramento do uso de venenos na agricultura é bastante insuficiente. “As indústrias de agrotóxico se defendem colocando prescrições quase impossíveis de serem feitas pelos pequenos produtores, que não têm as condições de fazer as dosagens que as indústrias propõem. Todos os anos morrem pessoas com identificação de contaminação por agrotóxico, outros ficam inválidos, e muitos morrem sem saber que foi por conta de agrotóxico. Quando têm câncer, não se consegue provar que foi por terem respirado agrotóxico, ou porque se ingeriu um alimento cheio de agrotóxicos”, explica o pesquisador. 

Encontro lança Rede Paraibana de Agroecologia

Durante três dias, a cidade de Campina Grande, no Agreste Paraibano, foi o ponto de encontro de uma diversidade de ativistas sociais, quilombolas, indígenas, agricultores, jovens, mulheres e representantes de entidades de assessoria técnica, além de núcleos de agroecologia das universidades e institutos federais. São membros de organizações e movimentos sociais que trabalham pelo fortalecimento da Agroecologia no campo e na cidade. O encontro aconteceu de 08 a 10 de maio e contou com cerca de 150 pessoas. 

O grande encaminhamento do encontro foi a criação da Rede Paraibana de Agroecologia, uma articulação permanente que inclui todos os segmentos presentes no evento. 

Encontro reuniu cento e cinquenta integrantes de movimentos e organizações sociais do campo e da cidade.

IV Encontro Nacional de Agroecologia

O ENA é o encontro promovido pela Articulação Nacional de Agroecologia. Neste quarto ano de atuação, terá como tema: “Agroecologia e Democracia unindo campo e cidade”. O evento acontecerá de 31 de maio a 03 de junho em Belo Horizonte e espera-se a participação de cerca de duas mil pessoas. Alguns de seus objetivos são: trocar experiências, compartilhar aprendizados, discutir os efeitos das políticas públicas para a agricultura familiar e para os povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e dar visibilidade pública à agenda política do movimento agroecológico junto aos governos e à sociedade.

Locais e horários das feiras

Confira agora dias e locais das principais feiras agroecológicas no estado da Paraíba.



João Pessoa


    • Feira Agroecológica Ecovárzea. UFPB, todas as sextas-feiras, das 4h às 12h.

    • Feira Agroecológica Ecosul. Avenida Argemiro de Figueiredo, Bairro do Bessa, todos os sábados, das 5h às 11h.

    • Feira Agroecológica. Shopping Sebrae, Bairro dos Estados, todas as quartas-feiras, das 13h às 17h. 

    • Feira Equilíbrio do Ser. Rua Sérgio Guerra, Bairro dos Bancários, todas as segundas-feiras e quartas-feiras.

    • Feira do Restaurante Oca. Avenida Almirante Barroso, 303, Centro, todas as terças-feiras, das 7h às 14h.

Campina Grande


    • No Museu do Algodão. Bairro do Catolé, todas as sextas-feiras, das 4h às 9h.

Remígio


    • No centro da cidade, todas as sextas-feiras, das 5h às 11h.

Cajazeiras


    • Praça Cristiano Cartaxo, todas as sextas-feiras de manhã.

Lagoa Seca


    • No Mercado do Produtor, todas as sextas-feiras, das 5h às 11h.
 
 
 
Áurea Olímpia, Paula Adissi, Thaís Peregrino

João Pessoa (PB)

Edição: Cida Alves

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