Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

O ano de 2019 iniciou com um misto de preocupação, incertezas, insegurança. O que de fato nos esperava na conjuntura pós-eleitoral? Considerando todos os discursos que instigam o ódio, o rancor e a violência contra as mulheres, as Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT’s) e militantes de Movimentos Sociais em geral.

Como seria a nossa Jornada Nacional de Luta em Março? Como nos colocaríamos no enfrentamento a todos os retrocessos? Tínhamos a certeza de que deveríamos ser forte, místico, bonito como sempre, mas precisávamos de mais cuidado. Porém, mantínhamos um desejo imenso do enfrentamento, em marcar nossa posição frente a tantos desmandos…

E assim foi, organizamos um mês de março marcado pela alegria e criatividade dos blocos de carnaval, das paródias e marchinhas, com muitas expressões artísticas e culturais nos atos de rua, nas caminhadas, com muita solidariedade na partilha de alimentos saudáveis, nas ações nas praças e parques, com muitos diálogos com feiras e bancas, mas também com muita força. Fizemos ocupação de terras para denunciar a violência contra as mulheres, como na fazenda de João de Deus, em Goiás, na ocupação dos trilhos para denunciar que a VALE S/A (antiga Companhia Vale do Rio Doce – CVRD) mata e que a empresa da morte continuava sua exploração transportando minério, apesar de ainda terem vidas soterradas sob a lama. Também reafirmamos a denúncia do assassinato de Marielle Franco, ex-vereadora do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL/Rio de Janeiro), com o lema “Pela Vida das Mulheres, Somos todas Marielle!”.


Marcamos o dia internacional das mulheres, com a necessidade de resgatar a origem desta data, marcada pela luta contra o capital, contra todas as formas de opressões, de classe, de gênero e de raça.

Seguimos o ano construindo o nosso I Encontro Nacional das Mulheres Sem Terra, com uma grande e bonita Ciranda de formação, articulação e encontros que alcançaram todas as áreas de Norte a Sul do Brasil, em todos os estados onde estamos organizados. Envolvemos amigas, parceiras, do campo e cidade, as jovens e de mais idade, forjando e preparando muitas mulheres Sem Terra para luta.

A mulheres do campo se desafiaram a produzir vídeos, escrever cartas, poesias e músicas, a sistematizar experiências, partilhar saberes e sabores e, organizar a diversidade de nossa produção.

Paralelamente a essa belíssima construção, fomos à luta contra os despejos, contra a violência no campo, em defesa da Reforma Agrária. Também participamos das lutas da classe trabalhadora, pela educação, saúde, contra a reforma da previdência, #EleNão e em defesa do meio ambiente.

Foi um ano intenso! Um tempo em que ainda nos solidarizarmos com as Chilenas, em confronto direto contra o neoliberalismo, com as Bolivianas em resistência ao Golpe de Estado e com os povos desta América Latina, atacada pelo imperialismo norte-americano.

Ao remarcar a data do nosso Encontro Nacional para março deste ano, dando continuidade ao trabalho de base, nos colocamos imediatamente a pensar e planejar todas as possibilidades trazidas pelos “aromas de Março, aromas dos dias de confrontos e de lutas”. Esse é o mês ideal para realização do nosso I Encontro Nacional das Mulheres Sem Terra, que tem como lema “Mulheres em Luta, Semeando Resistência!”. 

O ano que passou nos mostrou como somos capazes de construir possibilidades nas adversidades, resistir à expansão do neofascismo, e que precisamos potencializar as formas de enfrentamento às violências a que somos submetidas cotidianamente. Período em que também percebemos, que temos condições de construir um ano de 2020 com lutas, conquistas e esperanças. Seguimos preparando nosso momento de estarmos juntas, pois há 35 anos semeamos a resistência!

Afirmando sempre que, “Sem Feminismo, não há Socialismo!”

 

Por Setor de Gênero do MST

*Editado por Solange Engelmann