Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Grupo de agentes da Cáritas, CPT e CPP percorreu o caminho da lama de rejeitos da barragem da Vale, dialogando com moradores ao longo do Rio Paraopeba para compreender como o crime da mineradora vai impactar as comunidades. Preocupação se estende até o Rio São Francisco, que pode ser afetado.

 

(Por Vinícius Borges – comunicador popular da “Peregrinação Paraopeba /São Francisco: rastros de um crime” | Imagem: Ana Paula – CPT MG)

Enquanto a dor pelo crime da Vale, em Brumadinho (MG), ainda entristece todo o país, os caminhos dos rejeitos vão deixando suas marcas por um dos maiores rios de Minas Gerais: o Paraopeba. Agentes da Cáritas Regional Minas Gerais, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) estão seguindo as trilhas do impacto inicial do rompimento da barragem na vida das comunidades que dependem do rio ao longo de seu curso. A ação teve início na última quinta-feira (31) e traz o nome que retrata a motivação do ato: “Peregrinação Paraopeba/ São Francisco: rastros de um crime”.

Segundo o coordenador da Cáritas Minas Gerais, Rodrigo Pires, essa ação nasce da preocupação em garantir que a narrativa da Vale não predomine e que as pessoas possam ser ouvidas nas suas angústias pela iminente chegada dos rejeitos. “Um dos objetivos da Peregrinação é conversar com os movimentos, com as igrejas, com os pescadores e com o povo organizado, no sentido de alertar e dialogar sobre as ações que todos temos a fazer. Qual o conceito de atingido e de que forma a Vale trata isso?”, questiona.

Diante dos passos já trilhados pelo grupo, que é formado por sete agentes, a reflexão de irmã Neusa Francisca do Nascimento, representante do Conselho Pastoral dos Pescadores, faz ecoar um sentimento que mistura dor à fé do caminhar:

“Peregrinar de Brumadinho, atravessando o ‘vale de dejetos’ do crime da mineradora Vale rumo ao Velho Chico, está sendo a ‘Via Crucis’ mais dolorida e mais desafiadora para uma fé cristã. Um crime nesta dimensão mexe com as entranhas de nossa fé, numa mistura de dor, indignação e solidariedade com as tantas vítimas (…) mas, também, impulsiona-nos a gritar por justiça com nosso comportamento, com nossos atos concretos e não só com a voz. É contemplar Cristo crucificado em rostos humanos, mas também nas águas, na terra, nos animais, plantas e nas vidas de uma biodiversidade imensa afogada na lama tóxica!”, denuncia.

Peregrinar pelos rastros da lama

No dia 31, o grupo partiu de Brumadinho com direção a outros municípios margeados pelo Paraopeba. Somente no primeiro dia de peregrinação, foram 6 municípios visitados. Na cidade de São Joaquim de Bicas, o coletivo teve encontro com indígenas Pataxós e moradores do Acampamento Pátria Livre, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em seguida, o grupo esteve com moradores nas cidades de Pará de Minas, São José da Varginha, Florestal e Juatuba.

No segundo dia de peregrinação, o coletivo visitou o curso do rio na região rural de Juatuba e Curvelo. Em seguida, visitou a Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, que fica no limite dos municípios de Curvelo, Pompéu e Felixlândia. É lá que duas turbinas foram desligadas para que haja contenção dos rejeitos, a fim de evitar que eles cheguem ao Rio São Francisco. Os funcionários da usina não acreditam nessa hipótese, mas o temor já é uma certeza entre moradores e trabalhadores que vivem próximos ao Paraopeba. Para eles, a contaminação já chegou, embora ainda não seja percebida a olho nu.

Ao final do dia, o grupo se reuniu e começou a traçar as primeiras estratégias de atuação, já na cidade de Felixlândia. O objetivo é alcançar a cidade de Três Marias, onde o Paraopeba tem sua foz. É lá que novos depoimentos e informações devem ser colhidos para a produção de materiais de denúncia.

O crime da Vale

No dia 25 de janeiro, uma barragem de rejeitos de minério, pertencente a Vale, rompeu-se no município de Brumadinho, a 65 km de Belo Horizonte. O desastre teve um enorme impacto, resultando na morte confirmada de mais de 100 pessoas, além do alto número de desaparecidos – os números oficiais são, ainda, questionados por moradores locais. O crime tem ainda forte impacto ambiental, uma vez que os rejeitos contaminaram o Rio Paraopeba, que deságua no São Francisco. Segundo autoridades estaduais, a água já está contaminada, mas ainda não se sabe com detalhes quais os reais impactos a médio prazo e como os resíduos seguirão pelo curso da água.

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