Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Uma mulher que lutou até o fim dos seus dias pelo direito à terra no Piauí. É assim que Antônio Maria da Conceição, a dona Antônia Flor, é reconhecida no Estado e até mesmo em outros lugares do Brasil. Assassinada no dia 1º de dezembro de 1984, no município de Piripiri, na beira de um fogão de lenha enquanto fazia o almoço para os filhos, Antônia Flor entrou para a história da luta pela Reforma Agrária. 

(Fonte: Cidadeverde.com | Imagem: Gabriel Paulino) 

Neste Dia 8 de Março, o Cidadeverde.com presta uma homenagem e conta um pouco da história de dona Antônia Flor. 

“Minha mãe é uma guerreira”, conta com orgulho o filho da dona Antônia Flor, o trabalhador rural, Enock Ferreira Santiago, aos 70 anos de idade. Ele, que mora no assentamento que hoje leva o nome da mãe, na zona rural de Piripiri, disse que a mãe lutou sozinha para criar os filhos; “era uma mulher linda e forte”. O seu pai morreu em 1974, desde então a matriarca lutava pela posse da terra. 

“Nós nascemos e nos criamos aqui. Minha mãe teve 10 filhos, hoje somos em quatro. Essa história vem de muito longe. Era uma terra agregada, acho que desde 1935 a gente morava aqui. A luta era para trabalhar e continuar com a vida aqui, mas os ‘padrão’ passou a terra para outras pessoas. E ‘os novos donos complicou (sic) a vida da minha mãe’ em 84. Nós passamos toda essa crise, toda uma luta para termos a terra, mas mesmo com minha mãe indo embora é uma felicidade saber que todos a admiram e continuamos aqui”, relatou seu Enock. 

Luta e Morte 

O Gregório Borges, da Comissão Pastoral da Terra (PI), explicou que dona Antônia Flor morava com os filhos em uma propriedade na zona rural de Piripiri, a 36 km do Centro do município, chamada de Comunidade Gameleira. Toda a luta pela terra começou, de fato, quando o proprietário, que vivia em harmonia com os posseiros, resolveu vender o terreno para outro, um cearense. Na transferência da terra, o novo proprietário não aceitava a permanência das famílias e queriam obriga-los a sair casa (foto abaixo). 

Dona Antônia Flor já morava há 50 anos na terra e reivindicava o seu direito de continuar no local.  “Ela foi uma resistência naquele lugar”. 

“Ela foi morta a tiros por pistoleiros quando cozinhava o almoço. A partir disso, começa a luta pela desapropriação dessa área. Essa conquista da terra pelos posseiros só ocorreu no dia 1 de dezembro de 2005”, conta.

“Ela é considerada uma mártire. Era uma pessoa de 80 anos que nunca desistiu da posse da terra. Ela era a matriarca, era quem enfrentava a todos nessa luta. Mesmo depois do assassinato dela, os mandantes do crime nunca foram punidos, mas também não conseguiram tirar nenhuma família de lá. Foi uma forte resistência”, acrescentou Gregório.

Desapropriação

Na época, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) fez a desapropriação da terra e 28 famílias foram assentadas, inclusive filhos e netos da Dona Antônia Flor.  Assim foi criado o Assentamento Antônia Flor, na região da Gameleira, que hoje abriga 30 famílias, mas tem capacidade para 39, conforme a última atualização do Incra, de agosto de 2017.

A terra em que tanto Dona Antônia Flor lutou agora leva o seu nome.  No assentamento, o galpão em que os moradores se reúnem para discutir melhorias para o local, dentre outras pautas, possui um memorial em sua homenagem. 

Assentamento Antônia Flor na zona rural de Piripiri, no Piauí. (Crédito: Gorete Ibiapina)

Para a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piripiri, Eunice Barros, Antônia Flor é “luta, organização, resistência e, acima de tudo, compromisso com a categoria rural. Nesse caso, para mim, ela representa toda a luta pela Reforma Agrária”. 

Ainda em Piripiri, Eunice Barros comentou que existe um Centro de Formação Antônia Flor, que é um espaço do sindicato, e está sendo construído um empreendimento que irá beneficiar 300 famílias por meio do programa federal Minha Casa Minha Vida.  Em Teresina, o nome do auditório do Incra também é uma homenagem a ela.

Um dia em sua homenagem 

O assassinato da trabalhadora rural foi um marco na luta pela reforma agrária, e o dia 1º de dezembro, data da morte da Dona Antônia Flor, é considerado o Dia Estadual de Luta pela Reforma Agrária no Piauí. A iniciativa da Lei é de autoria do atual presidente do Tribunal de Contas do Piauí, o conselheiro Olavo Rebelo, que na época era deputado estadual.

 

Advocacia Popular 

O Coletivo Antônia Flor é uma associação de advogados populares. Os membros são oriundos de projetos sociais, da Universidade Federal do Piauí e da Universidade Estadual do Piauí, dos projetos Cajuína e do Coraje, que se formavam em Direito e, muitas vezes, ficavam sem opção de militância na área como advogados. 

“Na verdade, esse projeto era de litigância estratégica para trabalhar as questões rurais, o deslocamento compulsório. Era um projeto para trabalhar as comunidades de Paulistana, que era deslocada pela Transnordestina. Então, nós queríamos uma referência que fosse da área rural e fosse feminina. Acabamos chegando ao nome da Antônia Flor, como ícone pela luta da terra, desses processos de violação de direito, pois ela foi morta nesse processo de assentamento”, comentou a professora Sueli Rodrigues, que é membro do Coletivo. 

Canção de amor e morte

O poeta e defensor público, Paulo Machado, ao conhecer a história da Dona Antônia Flor, escreveu um poema em sua homenagem. Assim que se formou em Direito, ele buscou compreender a formação e a consolidação da estrutura fundiária piauiense. 

“Foi assim que conheci Dona Antônia Maria da Conceição: uma cidadã octogenária, vítima de uma emboscada a mando de uma pretensão do proprietário da gleba (imóvel rural). O poema é uma homenagem à memória dela. Eu a reconheço como uma figura emblemática, forte”, ressaltou o poeta.

Veja o poema na íntegra:

 

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