Conflitos RN

2012 Chapada do Apodi

Chapada do Apodi: a resistência da vida frente à ameaça da morte

A Chapada do Apodi, região encravada entre os estados do Ceará e Rio Grande do Norte, vive hoje uma disputa entre dois modelos de desenvolvimento. De um lado, a agricultura camponesa, que preserva a vida, a biodiversidade, que distribui renda, democratiza o acesso à terra e à água. Do outro, um modelo que concentra terra, água, renda, que destrói a natureza, expulsa as famílias do campo, tudo isso em nome do lucro.

A região tem na agricultura sua principal atividade econômica, a qual é desenvolvida atualmente por milhares de famílias camponesas em pequenas propriedades rurais. São nesses locais que diversas experiências de produção agroecológicas vêm sendo realizadas. A Chapada do Apodi possui a segunda maior produção de mel de abelha do Brasil e um dos maiores rebanhos de caprinos do país. Tudo isso faz com que o município de Apodi tenha o 3º PIB agropecuário do Rio Grande do Norte.

Nos anos 1990, a Chapada do Apodi foi palco de uma intensa luta pela reforma agrária. Dominada pelos latifúndios, essa região começou a ser transformada com a implantação de diversos assentamentos, além da regularização de pequenas propriedades, onde centenas de famílias produzem de modo agroecológico e em convivência com o semiárido. Mel de abelha, caprinocultura, polpas de frutas, milho, feijão, algodão, hortaliças são algumas dessas produções. Com a luta, a região tornou-se referência na produção agroecológica e na convivência com o semiárido não só para o RN, mas para o país.

Na contramão desse processo de construção de vida, o Governo Federal, através do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS), decidiu implementar um projeto de perímetro irrigado com o objetivo de tornar essa região um polo de exportação de frutas. Para tanto, desapropriou por interesse social 13.855 hectares, uma área onde existem pequenas propriedades e vivem centenas de famílias. Para irrigar esse projeto, serão utilizadas as águas da barragem de Santa Cruz, que tem capacidade máxima de 600 milhões de metros cúbicos e está a aproximadamente 100 metros abaixo da Chapada. Com o argumento de gerar milhares de empregos, esse projeto está atraindo empresas multinacionais da fruticultura. Não é difícil de perceber que em pouco tempo toda a terra da Chapada e a água da barragem de Santa Cruz estará concentrada na mão dessas empresas.

Em contraposição a esse projeto, as famílias da Chapada e região vêm construindo um forte processo de resistência. Sob a coordenação do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Apodi, diversos movimentos e entidades se uniram às comunidades camponesas impactadas. Mobilizações, debates, reuniões, marchas, intercâmbios, e audiências têm sido realizados nesses últimos anos com o intuito de combater esse “projeto de morte” como bem definiu o presidente do STTR Apodi, Francisco Edilson.

Um gesto marcante de solidariedade e apoio à luta dessas comunidades partiu da Igreja Católica do RN através dos Bispos das três Dioceses do estado. Em dezembro de 2012, em uma nota direcionada aos cristãos e sociedade em geral, os Bispos manifestaram suas preocupações com as graves consequências que esse projeto irá trazer para as comunidades.

Em setembro de 2013, os Bispos do RN expressam novamente suas preocupações com a implantação desse projeto e convocaram o Clero, os cristãos e a sociedade em geral para uma visita de apoio e solidariedade as famílias do acampamento Edivan Pinto, considerado fruto da luta e resistência ao agronegócio. Centenas de pessoas atenderam ao chamado e se fizeram presentes nesse ato de solidariedade. Nesse dia, as famílias acampadas fixaram um cruzeiro no centro do acampamento como símbolo da fé na luta e resistência camponesa. Da mesma forma, presentearam os Bispos com um anel de tucum como sinal do compromisso da Igreja com a causa dos pobres da terra e das águas.

Em outubro de 2013, a região foi palco da Caravana Agroecológica e Cultural em preparação ao III Encontro Nacional de agroecologia, onde estiveram presentes representações de diversos movimentos e entidades de todo o Nordeste e de outras regiões do Brasil. Um dos momentos marcantes da Caravana foi o encontro de todas as delegações no acampamento Edivan Pinto, que após dois dias de percursos visitando experiências em diversas comunidades do Rio Grande do Norte e Ceará, se encontraram para prestar solidariedade às famílias acampadas e reafirmar a luta em defesa da agricultura familiar, camponesa e agroecológica.

Hoje, uma grande extensão de terra já está sob o domínio de algumas empresas de grande porte já instaladas na região. Comunidades estão desaparecendo e vários assentamentos estão impactados pelas plantações de fruticulturas das empresas que utilizam grandes quantidades de agrotóxicos.

A disputa de modelo de agricultura que vive a Chapada do Apodi é a expressão do que vem ocorrendo no campo brasileiro. A resistência das comunidades da região tornou-se uma luta nacional sintonizada com todas as grandes lutas em defesa dos territórios camponeses. Os camponeses e camponesas da Chapada do Apodi vêm dando uma demonstração de que a região é um território de resistência camponesa.